Para pessoas assim, rastreamentos de doenças, por exemplo, são necessariamente ruins. Não porque historicamente costumam não funcionar ou funcionar pouco - o que deveria moldar a probabilidade frente a qualquer nova avaliação, reduzindo expectativas. Mas porque representam "cercas", e cercas remetem a controle. E controle por médicos é ainda mais feio, pois representam uma elite a que esses dogmáticos fingem não pertencer.Entre os que apoiam a Choosing Wisely Brasil, há um público que simplesmente é contra tecnologias duras (as dos recursos materiais). Quanto mais os recursos se identificam com o aparato médico tradicional, mais são contra. Simpatizam com o que é leve ou "natural".
— Guilherme Barcellos (@brhospitalist) January 11, 2022
Ambicionamos aqui estimular ainda mais o debate acerca da relação entre a Medicina e as indústrias de medicamentos e tecnologias, e da forma como tem colocado em risco a credibilidade da Medicina Baseada em Evidências. Que consigamos viabilizar um espaço de diálogo altamente saudável, científico e construtivo.
terça-feira, janeiro 11, 2022
É preciso estar ALERTA também para conflitos de interesse ideológicos...
quinta-feira, setembro 30, 2021
O maior erro na pandemia é dar palco para pseudocientistas que se alimentam da polarização caricatural.
a) os que realmente não compreendem e precisam ser educados, não combatidos. E bate-bocas ou chacotas - que muito eu próprio já fiz - não educam ninguém;
b) os que não querem sob nenhuma hipótese ser educados, São membros passivos, hipnotizados, de uma verdadeira SEITA;
c) os que fazem por estratégia pessoal já muito bem organizada e, como tal, não mais a partir de conflitos de interesse (pode assim ter começado), mas alçando esses mesmo interesses a primários, principais. São candidatos a líderes da seita! E, ao jogarem para os que não querem sob hipótese nenhuma ser educados, só têm a ganhar com repercussões de qualquer natureza, mesmo contundentes e muito bem fundamentadas críticas.
quarta-feira, setembro 29, 2021
O cérebro ético na Medicina (o eu ético - o outro não)
Postagem originalmente em Saúde Business (2015), mas está desconfigurada lá. É ainda parte de um conteúdo maior, disponível aqui.
"Estudos em neurociência e psicologia sugerem que toda pessoa pode ser um pouco mais influenciável do que costuma pensar que seja. E não é surpreendente que médicos pensem que conflitos de interesses não os afetam pessoalmente, apenas aos outros.
Na avaliação de autores de diretrizes clínicas citada previamente (Choudhry et al., 2002), quando perguntaram se existia a possibilidade do relacionamento afetar recomendações, apenas 7% disse que sim - considerando suas próprias recomendações - mas praticamente 1/5 respondeu que o colega poderia ser influenciado. Vários são os trabalhos onde este resultado se repete. Reforça o paradoxo atual da civilização ocidental: cada um de nós, individualmente ou em grupos organizados, tem a crença de estar muito acima de tudo que aí está.
Ninguém aceita, ninguém aguenta mais, nenhum de nós pactua com o mar de lama. O problema é que, ao mesmo tempo, o resultado de todos nós juntos é precisamente tudo o que aí está, estamos muito aquém da somatória das nossas auto-imagens individuais ou corporativas (Blum, 1994; Sandel, 2005; Wojciszke, 2005; Bocian e Wojciszke, 2014).
Se é compreensível que a maioria de nós veja a si mesmo como pessoa ética que sob hipótese alguma colocaria sua objetividade a venda, isso atrapalha, e muito, a busca por soluções.
Possíveis soluções e outras considerações:
Em diversos espaços onde atuamos discutindo o tema, costumamos sugerir, genericamente:[*] De acordo com Houaiss (2009), fundamentalismo é qualquer corrente, movimento ou atitude que enfatiza a obediência rigorosa e literal a um conjunto de princípios básicos; integrismo.
4. Menos críticas e mais hipóteses, em busca por soluções;
5. Mais ciência e menos achismo: testar, avaliar, rediscutir, modificar;
6. Mudança de cultura em todos os níveis;
7. É preciso reformularmos ontem o modelo de remuneração na Saúde, distanciando-se do fee for service.
Em suma, precisamos dar a esse debate a dimensão que ele merece e aportar a ele aquilo que a medicina tem de melhor: sua ciência e sua ética. Esse é o desafio.
quinta-feira, junho 10, 2021
Por que a contemporânea discussão circular entre quem estaria do lado da Ciência e quem seria do Lado Sombrio da Força, além de contraprodutiva, é excessivamente romântica, quase infantil?
Nem todos que vivem ou buscam viver da própria MBE (cursos e afins) se dão conta que, ao aparecerem com a nova evidência, provocando e sugerindo uma pequena revolução, mesmo que teórica, o fazem também porque simplesmente o ato valoriza a si próprios, os seus objetivos e as suas metas profissionais, naquele momento ao menos.
Já, médicos eminentemente assistenciais, se quiserem fazer o mesmo, em especial no território em que atuam, sobremodo existindo estruturas multidisciplinares hierárquicas e não estando no topo, além de contar habitualmente com sobrecargas do próprio trabalho, podem avançar em terrenos altamente movediços. De pressões e riscos que não trazem apenas ameaça de perderem aquela posição específica ou parcela do próprio dinheiro. É muito mais complexo!
Estar em “posições protegidas” diz respeito a algumas pessoas dentro de estruturas do mercado da saúde que, a depender de quem são, a tal posição provocadora, "fora da caixa", por vezes até desconcertante, acaba funcionando como mídia indireta, sinal de que aquela instituição valoriza assuntos como humanização, ética ou ciência, sem necessariamente acontecer na ponta (ruído proposital então, não sinal). Consome a atenção das pessoas e produz efeito catártico sobre a opinião da comunidade, embora, muitas vezes, nem a pessoa que está na vitrine perceba a encenação - é tomada por vaidade e por uma ponta de esperança de que despertará mudanças, mesmo que lentas e gradativas.
Já o combate à pseudociência da COVID-19 reuniu todos com mínimo bom-senso, por mais que junto venham outros vários apenas surfando esta justa onda. É quase como "chutar cachorro morto". Não exatamente porque o outro lado até reage. Ocorre que vivem em tribalismo já caricatural. Mexer na estrutura dos conflitos de interesse dos grupamentos médicos que verdadeiramente dão as cartas em todo resto que aproxima a Medicina da pseudociência da COVID-19 (e não é pouco, exemplos aqui, aqui e muito outros neste Blog), por sua vez, é buraco muito muito muito muito mais embaixo...
(1) Educação tem magnitude de efeito modesta. Precisamos aceitar isso e avançar. Sequer conhecimento garante, basta lembrar que um dos que me ensinou MBE na UFRGS (e me inspirou na profissão) se tornou agora defensor do “tratamento precoce”.
— Guilherme Barcellos (@brhospitalist) May 5, 2021
E ficou evidente aqui também:
Essa é a lição que não queremos aprender. Os sistemas deve ser preparados para resultados assim. Acontecem! Mas não querermos esta preparação. Não quer quem já sucumbiu. Não quer quem acredita que nunca sucumbirá a lapsos éticos porque “não pertence a este mundo”. https://t.co/9wOiopv66X
— Guilherme Barcellos (@brhospitalist) June 4, 2021
Outro exemplo diz respeito a um dos mais famosos cloroquiners gaúchos. O conheci de perto anos atrás. Posso garantir que sabe MBE, diria até que mais do que a média dos que dominam tantos os fundamentos quanto as ferramentas necessárias para sua aplicação prática. Anos atrás já utilizou deste conhecimento para promoção "armada" de um dispositivo médico de magnitude de efeito tão questionável que nunca emplacou.
Há, nos dois lados da Força, tanto no da "Luz" quanto no das "Trevas", gente boa e gente ruim em bioestatística e SBE. É muito provável que, em média, predominem os melhores no da "Ciência". Ainda assim, não será por tentar demarcar melhor este terreno que resolveremos em maior escala o que meu amigo Luis um dia chamou de Medicina Baseada em Fantasia. Precisamos de menos Jedi e mais humildade - para começo. Adiante disto, mudanças na fisiologia do sistema médico devem ser buscadas, tais como instigamos em material para o CREMESP em 2012, quase 10 anos atrás então, com muito pouco eco.
Sempre que o objetivo é manter o "status quo médico", surge o discurso de tratar todos a priori como "éticos" e "autônomos", junto com a promessa de punição, "caso algo seja descoberto". É assim desde muito antes da pandemia, e uma mesma pessoa ou entidade muda de lado conforme a perspectiva.


