sexta-feira, agosto 21, 2026

Quando as relações humanas desafiam a autocalibração da Medicina

O ecossistema médico ainda demonstra uma capacidade bastante limitada de autocrítica e autorregulação. E isso não se explica apenas pelos conflitos de interesse mais evidentes ou graves — financeiros, comerciais ou eventualmente abusivos. Parte importante do problema nasce de mecanismos muito mais banais e socialmente mediados: relações pessoais, vínculos afetivos, pertencimento a grupos, necessidade de agradar colegas próximos ou dificuldade de confrontá-los, mesmo no espírito construtivo de questionamento sobre o qual a própria ciência deve se sustentar.

Um episódio recente ajuda a ilustrar isso. Em um congresso de uma especialidade médica consolidada, um profissional ligado a práticas alternativas recebeu espaço para apresentar ideias tecnicamente muito questionáveis. A justificativa informal para sua presença, porém, não estava propriamente na qualidade científica do conteúdo, mas no fato de ser alguém próximo: uma pessoa querida, conhecida do grupo organizador.

Esse tipo de situação amplia a própria noção de conflito de interesse. Nem todo conflito envolve dinheiro, indústria ou vantagem material. Existem também conflitos de lealdade, amizade, identidade de grupo e conveniência social — talvez ainda mais difíceis de reconhecer justamente porque fazem parte do cotidiano e frequentemente se confundem com valores legítimos das relações humanas.

Talvez esteja aí uma das razões pelas quais a autocalibração médica seja tão difícil. É relativamente fácil identificar e condenar o conflito distante e escandaloso; muito mais difícil é questionar aquilo que acontece entre pessoas com quem convivemos ou às quais nos sentimos ligados por alguma razão — ainda que seja pelo legítimo desejo de preservar uma convivência harmoniosa.

E o problema não termina na escolha de quem sobe ao palco de um congresso. Esses mecanismos todos, somados, ajudam a explicar por que é tão difícil para a própria Medicina estabelecer limites, hierarquizar intervenções e construir padrões técnicos suficientemente claros sobre o que deveria ocupar mais ou menos espaço na prática. Quando evidência, tradição, identidade profissional, relações pessoais, interesses econômicos e conveniências sociais se misturam, não surpreende que práticas de valor muito diferente acabem recebendo graus semelhantes de legitimidade.

O episódio, portanto, não escancarava apenas um conflito pontual. Escancarava a complexidade do desafio de regular um sistema no qual aquilo que deveria ser filtrado e hierarquizado tecnicamente é também continuamente moldado pelas relações humanas que o constituem. E talvez seja justamente essa mistura que ajude a explicar por que, em Medicina, é tão difícil não apenas estabelecer padrões, mas também definir com clareza o que deve ser priorizado, tolerado, questionado ou simplesmente deixado de lado.

terça-feira, abril 21, 2026

The Continuing Stream of Exercise Churnalism — Adam Cifu


Cerca de 10 anos atrás, criei um site chamado Flawed Science Times. Passei tempo demais nele, tornando-o quase indistinguível da seção semanal Science Times do New York Times. Minha ideia era escrever semanalmente sobre o que havia de errado na cobertura de ciência da saúde naquela semana.

Nunca publiquei o site — provavelmente foi melhor assim, já que suspeito que eu teria ficado deprimido e possivelmente enfrentado problemas legais.

Nos primeiros dias do Sensible Medicine, publicamos uma série sobre churnalism. Definimos isso como o relato, sem cuidado e sem curiosidade, de estudos biomédicos mal conduzidos. Argumentamos que esse tipo de jornalismo substitui a história real — por que um estudo é irrelevante ou o que ele realmente mostra — por uma narrativa fácil. Ainda escrevemos sobre isso de tempos em tempos.


Exercício

Antes de continuar, devo dizer:

Exercício é bom para você.

Há evidência extremamente forte de que ele previne mais doenças do que a maioria das pessoas consegue listar: obesidade, doença coronariana, diabetes, demência, câncer, depressão, entre outras.

Também é barato — mais barato do que muitos dos medicamentos modernos.

Todos deveriam encontrar uma forma segura de se exercitar tanto quanto possível, todos os dias.


O problema

A maioria dos artigos sobre exercício aborda uma questão que quase ninguém realmente precisa fazer:

“Se eu já estou me exercitando o máximo possível, há algo que posso fazer para tornar isso ainda melhor?”


Tênis e longevidade

Recentemente, o New York Times publicou um artigo afirmando que o tênis é o melhor esporte para longevidade.

Essa afirmação vem de um estudo dinamarquês publicado em 2018. É um bom exemplo de jornalismo ruim sobre exercício.


Pecado: ignorar plausibilidade

No estudo:

  • Pessoas relataram seus hábitos de exercício
  • Foram acompanhadas por cerca de 25 anos

Havia um problema importante:

  • Muitas pessoas participavam de múltiplas atividades
  • Os grupos não eram exclusivos

Ainda assim, os autores relataram que:

  • Jogar tênis estava associado a mais de 9 anos adicionais de vida
  • Natação a cerca de 3 anos

Isso não é plausível.

A diferença entre diferentes tipos de exercício não deveria ser maior do que a diferença entre fazer exercício e não fazer.


Pecado: confusão (confounding)

É muito mais provável que o resultado seja explicado por confusão.

Pessoas que jogam tênis:

  • Tendem a ser mais ricas
  • Têm melhor acesso a instalações
  • Têm mais conexões sociais
  • São, em geral, mais saudáveis desde o início

Além disso, jogar tênis exige:

  • Acesso a quadras
  • Tempo
  • Outras pessoas ou dinheiro para pagar alguém

Ou seja, esse grupo já é diferente.


Pecado: “disclaimer” seguido de desvio

O artigo observa que:

“Esses estudos não provam causalidade.”

Mas rapidamente passa a citar especialistas dizendo que:

“O tênis pode ser especialmente benéfico.”

Esse padrão é comum:

  • Primeiro, admite-se a limitação
  • Depois, apresenta-se a conclusão como se fosse válida

Pecado: falta de curiosidade

O problema maior é a falta de curiosidade.

Os jornalistas poderiam perguntar:

  • Por que esse resultado parece implausível?
  • Qual é o papel da renda?
  • Qual é o papel das conexões sociais?
  • Qual é o papel da saúde inicial?

Mas essas perguntas raramente são feitas.


Conclusão

Exercício é bom.

Mas a cobertura sobre exercício frequentemente não é.

Ela transforma estudos limitados em conclusões amplas e enganosas.


Ideia central

Se você não se exercita, deveria começar.

Se você já se exercita, deveria continuar.

https://www.sensible-med.com/p/the-continuing-stream-of-exercise

terça-feira, março 24, 2026

 

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