Evidence BIASED Medicine
Ambicionamos aqui estimular ainda mais o debate acerca da relação entre a Medicina e as indústrias de medicamentos e tecnologias, e da forma como tem colocado em risco a credibilidade da Medicina Baseada em Evidências. Que consigamos viabilizar um espaço de diálogo altamente saudável, científico e construtivo.
terça-feira, setembro 08, 2026
sexta-feira, agosto 21, 2026
Quando as relações humanas desafiam a autocalibração da Medicina
O ecossistema médico ainda demonstra uma capacidade bastante limitada de autocrítica e autorregulação. E isso não se explica apenas pelos conflitos de interesse mais evidentes ou graves — financeiros, comerciais ou eventualmente abusivos. Parte importante do problema nasce de mecanismos muito mais banais e socialmente mediados: relações pessoais, vínculos afetivos, pertencimento a grupos, necessidade de agradar colegas próximos ou dificuldade de confrontá-los, mesmo no espírito construtivo de questionamento sobre o qual a própria ciência deve se sustentar.
Um episódio recente ajuda a ilustrar isso. Em um congresso de uma especialidade médica consolidada, um profissional ligado a práticas alternativas recebeu espaço para apresentar ideias tecnicamente muito questionáveis. A justificativa informal para sua presença, porém, não estava propriamente na qualidade científica do conteúdo, mas no fato de ser alguém próximo: uma pessoa querida, conhecida do grupo organizador.
Esse tipo de situação amplia a própria noção de conflito de interesse. Nem todo conflito envolve dinheiro, indústria ou vantagem material. Existem também conflitos de lealdade, amizade, identidade de grupo e conveniência social — talvez ainda mais difíceis de reconhecer justamente porque fazem parte do cotidiano e frequentemente se confundem com valores legítimos das relações humanas.
Talvez esteja aí uma das razões pelas quais a autocalibração médica seja tão difícil. É relativamente fácil identificar e condenar o conflito distante e escandaloso; muito mais difícil é questionar aquilo que acontece entre pessoas com quem convivemos ou às quais nos sentimos ligados por alguma razão — ainda que seja pelo legítimo desejo de preservar uma convivência harmoniosa.
E o problema não termina na escolha de quem sobe ao palco de um congresso. Esses mecanismos todos, somados, ajudam a explicar por que é tão difícil para a própria Medicina estabelecer limites, hierarquizar intervenções e construir padrões técnicos suficientemente claros sobre o que deveria ocupar mais ou menos espaço na prática. Quando evidência, tradição, identidade profissional, relações pessoais, interesses econômicos e conveniências sociais se misturam, não surpreende que práticas de valor muito diferente acabem recebendo graus semelhantes de legitimidade.
O episódio, portanto, não escancarava apenas um conflito pontual. Escancarava a complexidade do desafio de regular um sistema no qual aquilo que deveria ser filtrado e hierarquizado tecnicamente é também continuamente moldado pelas relações humanas que o constituem. E talvez seja justamente essa mistura que ajude a explicar por que, em Medicina, é tão difícil não apenas estabelecer padrões, mas também definir com clareza o que deve ser priorizado, tolerado, questionado ou simplesmente deixado de lado.
quinta-feira, abril 23, 2026
terça-feira, abril 21, 2026
The Continuing Stream of Exercise Churnalism — Adam Cifu
Cerca de 10 anos atrás, criei um site chamado Flawed Science Times. Passei tempo demais nele, tornando-o quase indistinguível da seção semanal Science Times do New York Times. Minha ideia era escrever semanalmente sobre o que havia de errado na cobertura de ciência da saúde naquela semana.
Nos primeiros dias do Sensible Medicine, publicamos uma série sobre churnalism. Definimos isso como o relato, sem cuidado e sem curiosidade, de estudos biomédicos mal conduzidos. Argumentamos que esse tipo de jornalismo substitui a história real — por que um estudo é irrelevante ou o que ele realmente mostra — por uma narrativa fácil. Ainda escrevemos sobre isso de tempos em tempos.
Exercício
Antes de continuar, devo dizer:
Exercício é bom para você.
Há evidência extremamente forte de que ele previne mais doenças do que a maioria das pessoas consegue listar: obesidade, doença coronariana, diabetes, demência, câncer, depressão, entre outras.
Também é barato — mais barato do que muitos dos medicamentos modernos.
Todos deveriam encontrar uma forma segura de se exercitar tanto quanto possível, todos os dias.
O problema
A maioria dos artigos sobre exercício aborda uma questão que quase ninguém realmente precisa fazer:
“Se eu já estou me exercitando o máximo possível, há algo que posso fazer para tornar isso ainda melhor?”
Tênis e longevidade
Recentemente, o New York Times publicou um artigo afirmando que o tênis é o melhor esporte para longevidade.
Essa afirmação vem de um estudo dinamarquês publicado em 2018. É um bom exemplo de jornalismo ruim sobre exercício.
Pecado: ignorar plausibilidade
No estudo:
- Pessoas relataram seus hábitos de exercício
- Foram acompanhadas por cerca de 25 anos
Havia um problema importante:
- Muitas pessoas participavam de múltiplas atividades
- Os grupos não eram exclusivos
Ainda assim, os autores relataram que:
- Jogar tênis estava associado a mais de 9 anos adicionais de vida
- Natação a cerca de 3 anos
Isso não é plausível.
A diferença entre diferentes tipos de exercício não deveria ser maior do que a diferença entre fazer exercício e não fazer.
Pecado: confusão (confounding)
É muito mais provável que o resultado seja explicado por confusão.
Pessoas que jogam tênis:
- Tendem a ser mais ricas
- Têm melhor acesso a instalações
- Têm mais conexões sociais
- São, em geral, mais saudáveis desde o início
Além disso, jogar tênis exige:
- Acesso a quadras
- Tempo
- Outras pessoas ou dinheiro para pagar alguém
Ou seja, esse grupo já é diferente.
Pecado: “disclaimer” seguido de desvio
O artigo observa que:
“Esses estudos não provam causalidade.”
Mas rapidamente passa a citar especialistas dizendo que:
“O tênis pode ser especialmente benéfico.”
Esse padrão é comum:
- Primeiro, admite-se a limitação
- Depois, apresenta-se a conclusão como se fosse válida
Pecado: falta de curiosidade
O problema maior é a falta de curiosidade.
Os jornalistas poderiam perguntar:
- Por que esse resultado parece implausível?
- Qual é o papel da renda?
- Qual é o papel das conexões sociais?
- Qual é o papel da saúde inicial?
Mas essas perguntas raramente são feitas.
Conclusão
Exercício é bom.
Mas a cobertura sobre exercício frequentemente não é.
Ela transforma estudos limitados em conclusões amplas e enganosas.
Ideia central
Se você não se exercita, deveria começar.
Se você já se exercita, deveria continuar.
https://www.sensible-med.com/p/the-continuing-stream-of-exercise
terça-feira, março 24, 2026
Representante de laboratório conseguiu pegar os médicos da nossa clínica juntos ontem.
— Glauber (@glauber_doc) March 24, 2026
Falou que era pra dar apoio pra ele nas vendas que assim a gente conseguiria lanchinho, e inscrição em congresso. E que era importante o receituário com o medicamento porque assim eles…
