quarta-feira, junho 12, 2013

Quebra da relação entre médicos e indústria farmacêutica melhora saúde e reduz custos

Um novo relatório sugere que melhorias no cuidado à saúde e reduções significativas nos custos de medicamentos podem ser obtidas rompendo o antigo relacionamento entre médicos e representantes das empresas farmacêuticas que promovem os medicamentos mais novos, mais caros e muitas vezes desnecessários.

Esse sistema, que está em vigor há décadas, beneficiou os médicos no passado, mantendo-os atualizados sobre novos medicamentos, e fornecendo generosas quantidades de amostras grátis para que os pacientes começassem a usar as drogas mais recentes, bem como outros materiais e presentes.

Mas esse sistema é na verdade um poderoso processo de marketing em que a indústria farmacêutica despeja dezenas de bilhões de dólares por ano, com mais de 90 mil representantes distribuindo presentes e recomendações.

Há um representante farmacêutico para cada oito médicos nos Estados Unidos.

Isto não necessariamente serve aos melhores interesses dos pacientes em termos de economia, eficácia, segurança e precisão das informações, dizem os especialistas autores do relatório.

Livre dos representantes das empresas farmacêuticas

Em um dos primeiros estudos desse tipo - intitulado Breaking Up is Hard to Do - "Romper é Difícil", em tradução livre - pesquisadores da Universidade do Estado do Oregon, da Universidade de Ciência e Saúde do Oregon e da Universidade de Washington descrevem o processo deliberado que uma clínica médica empreendeu para remover os representantes das empresas empresas farmacêuticas de sua prática.

O estudo explora os obstáculos enfrentados e o resultado final, bem-sucedido.

O estudo concluiu que evitar conflitos de interesse e tornar-se "pharma-free" é possível, mas não é fácil.

"É uma mudança de cultura, que já está acontecendo, mas ainda tem um caminho a percorrer, especialmente em clínicas privadas menores," disse o Dr. David Evans, um dos autores do estudo.

Parte do que está permitindo essa mudança, segundo os pesquisadores, é que as informações sobre novos medicamentos já estão disponíveis em muitas outras formas.

Essas outras fontes têm menos viés e são mais baseadas em evidências científicas do que o material tradicionalmente fornecido pela indústria farmacêutica, que quer vender o produto mais recente.

Como quebrar a ligação entre médicos e representantes

Na Clínica Madras, onde foi feito o piloto de eliminação da influência dos representantes, os médicos substituíram as informações fornecidas anteriormente pelos representantes por reuniões mensais para atualização sobre novos medicamentos, com base em estudos científicos revisados pelos pares, em lugar da literatura promocional.

"Nos últimos 5-10 anos houve um reforço de um movimento em direção ao que chamamos de 'detalhamento acadêmico', em que as universidades e outras fontes imparciais de informação podem fornecer informações precisas, sem viés," disse Daniel Hartung, coautor do estudo. "Isso está sendo apoiado por alguns estados e pelo governo federal, e é um passo na direção certa."

A nova análise explora as medidas necessárias que uma clínica privada pode tomar para ajudar a resolver este problema, incluindo a quantificação da relação clínica-indústria, antecipação das preocupações dos clínicos e funcionários, como encontrar novas formas de fornecer informações atualizadas e de educar os pacientes e o público.

O relatório, publicado no Journal of the American Board of Family Medicine, pode ser lido gratuitamente no endereço http://bit.ly/19tKK06.

Fonte: Diário da Saúde

sexta-feira, maio 31, 2013

Podemos confiar na pesquisa biomédica?





Confiabilidade em crise

Cientificamente comprovado. Ou não? Por trás da aparente objetividade da literatura científica, esconde-se um universo repleto de aleatoriedade, fontes de viés e conflitos de interesse. Artigo de capa da CH 303 questiona até onde podemos acreditar no que se publica.

Por: Olavo Bohrer Amaral - Revista CH/2013/Edição 303

sábado, maio 25, 2013

Terapia de Risco: thriller sobre a indústria farmacêutica

O filme é protagonizado por Rooney Mara, que concorreu ao Oscar por sua atuação em Os homens que não amavam as mulheres. A história se aprofunda na relação entre as alterações de humor e comportamento devido ao uso de substâncias químicas. No longa, mulher começa a usar medicamento tentando conter a ansiedade do retorno de seu marido, recém-saído da prisão. Jude Law e Catherine Zeta-Jones vivem psiquiatras na trama.

quarta-feira, maio 01, 2013

Psicologia da Corrupção

Fraudes médicas e hospitalares

O cerco aos médicos que indicam cirurgias desnecessárias e lucram muito com isso parece estar se fechando. Pelo menos nos Estados Unidos.

Há duas semanas, agentes do FBI prenderam o CEO, um executivo e quatro médicos do Hospital Sagrado Coração de Chicago acusados de envolvimento com um esquema de propina que levou pacientes a serem submetidos a procedimentos desnecessários e arriscados.

Segundo o "Chicago Tribune", o FBI contou com a colaboração de funcionários que estavam envolvidos no esquema, mas que entraram num programa parecido com o nosso delação premiada para ajudar nas investigações.

Os procedimentos considerados desnecessários incluíam sedação, implantes penianos e traqueostomia e eram pagos pelo Medicaid e pelo Medicare, programas públicos de saúde do governo norte-americano.

A fraude envolveu pelo menos US$ 2 milhões de reembolsos indevidos e mais de US$ 225 mil em subornos pagos a médicos só no ano de 2012. Médicos também são acusados de receber propinas indiretas, com supostos treinamentos a estudantes que nunca existiram.

De acordo com o procurador Gary Shapiro, o hospital subornava médicos para encaminharem pacientes para a instituição. "A qualidade do atendimento médico era menos importante do que a maximização do número de pacientes canalizados para o hospital."

Os investigadores federais disseram que começaram as investigações no início deste ano, depois de saber que os médicos estariam realizando uma traqueostomia desnecessária em um homem idoso.

Três testemunhas decidiram cooperar com a investigação depois de serem pegas na fraude. Uma delas gravou o CEO Edward Novak dizendo que as traqueostomias são "a maior máquina de fazer dinheiro". O hospital recebia cerca de US$ 160 mil para o procedimento, se o paciente permanecesse internado por pelo menos 27 dias.

"Toda vez que você se depara com um caso em que os pacientes estão sendo usados como massa de manobra para o lucro, isso é muito problemático", diz Lamont Pugh, chefe do HHS (departamento de saúde e serviços humanos) em Chicago.

De acordo com depoimentos, um dos médicos envolvidos realizou 28 traqueostomias desnecessárias em pacientes do Medicare desde 2010. Cinco desses pacientes morreram após duas semanas da cirurgia. As investigações continuam.

Ano passado, outra investigação havia descoberto que "Hospital Chain Internal", maior cadeia de hospitais privados dos Estados Unidos, vinha realizando tratamentos cardíacos que não eram necessários para a saúde do paciente.

O fato ocorreu nas unidades da Flórida e foi descoberto após uma reclamação de uma enfermeira do local. "Aquilo vinha me incomodando. Eu sou uma enfermeira e me preocupo com os pacientes", afirmou C.T. Tomlinson em entrevista ao "New York Times".

Em menos de dois meses, uma investigação interna confirmou a fraude: "as alegações sobre procedimentos desnecessários sendo realizados no laboratório de cateterismo são fundamentadas", afirmou um relatório confidencial escrito pelo diretor de ética da empresa, Stephen Johnson.

As provas encobertas pela cadeia desde 2010 mostraram que cardiologistas de vários hospitais da Flórida não podiam justificar os procedimentos que eles estavam realizando nos pacientes. Em alguns casos, os médicos fizeram declarações enganosas em registros médicos para justificar os procedimentos, segundo os relatórios.

Não me admiraria nadinha se fraudes desse tipo fossem descobertas por aqui também. O atual modelo de remuneração dos hospitais (fee for service, ou pagamento por procedimento numa tradução livre) favorece esse tipo de sacanagem. Quanto mais exames e procedimentos são feitos, mais os hospitais ganham dos planos de saúde.

Atualmente, a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) está estudando um novo modelo de remuneração baseado em pacotes. A ideia é definir um grupo de procedimentos com desfechos "previsíveis" (uma cirurgia de apêndice, por exemplo) e pagar o mesmo valor para todos os hospitais.

Inicialmente, haverá um projeto piloto com cerca de 20 instituições participantes. Ainda que haja resistências óbvias, é um começo. Esse é um assunto que interessa a toda sociedade e precisa ser amplamente discutido. Afinal, somo nós, consumidores de serviços de saúde, que estamos pagando essa conta.

por Cláudia Collucci, repórter especial da Folha e especializada na área da saúde
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...