quinta-feira, maio 21, 2015

Com apoio de farmacêuticas, associações pedem mais remédios na lista do SUS

Várias associações têm se dedicado a aumentar a quantidade de remédios oferecidos gratuitamente pelo SUS, a maioria com apoio da indústria farmacêutica.

Pacientes com diabetes, câncer e artrite reumatoide, por exemplo, têm seus grupos organizados de lobby.

A estratégia inclui utilizar o dinheiro das associações para agendar encontros e promover eventos, tentando influenciar políticos, formadores de opinião, médicos e técnicos do governo.

terça-feira, maio 19, 2015

Boom antipsicótico para depressão preocupa médicos

por Cláudia Collucci, repórter especial da Folha, especializada em saúde.

"Os médicos estão prescrevendo antipsicóticos para a depressão sem indicação clara, sem pensar duas vezes e sob a pressão de empresas farmacêuticas". O alerta vem de Allen Frances, ex-presidente do departamento de psiquiatria da Escola de Medicina da Universidade Duke, em entrevista recente ao "BuzzFeed News".

Sim, Frances é um crítico aberto da indústria farmacêutica. Mas nem de longe ele está sozinho nessa cruzada contra o uso inadvertido dos antipsicóticos. As vendas de aripiprazol (Abilify), uma classe de drogas que estreou na década de 1990 como um meio mais seguro de conter crises psicóticas de pessoas com esquizofrenia, dispararam nos últimos anos. E não é porque houve aumento dos casos de esquizofrenia. A razão é que o uso tem sido estendido para outras doenças mentais mais comuns, como demência, transtorno de conduta da infância e, especialmente, a depressão.

Em 2014, o aripiprazol foi prescrito para quase 9 milhões de americanos, tornando-se a segunda droga mais vendida nos EUA, conforme a empresa IMS Health. Em volume de vendas, passou de US$ 6,6 bilhões em 2013 para quase US$ 8 bilhões em 2014.

Muitos psiquiatras e pesquisadores têm se preocupado com esse boom antipsicótico. Eles apontam que há evidências limitadas na utilidade dessas drogas no tratamento da depressão a longo prazo. E o que é pior: elas têm efeitos secundários graves, tais como a sedação, ganho de peso e um aumento do risco de diabetes. Em cerca de um quarto dos casos, essas drogas também causam acatisia, um forte sentimento de inquietação descrito como "fazer você querer pular fora de sua pele".

Parece não haver dúvidas de que, para algumas pessoas com depressão, essas drogas fazem maravilhas. Mas nem de longe esses benefícios se estendem para a maioria dos deprimidos. Uma revisão de estudos de 2009 diz que, estatisticamente, para cada nove pessoas com depressão que tomam esses medicamentos, apenas uma terá um resultado positivo.

Ou seja, o que era para ser um droga com indicação restrita acabou se tornando uma campeã de vendas na América.

Os antipsicóticos também estão sendo exageradamente prescritos para acalmar pacientes com demência, apesar deles duplicarem o risco de morte (recentemente os rótulos dessas drogas passaram a avisar sobre a contraindicação nos casos de demência).

Os médicos também têm receitado esses medicamentos para distúrbios comportamentais em crianças pequenas, que são particularmente vulneráveis aos efeitos colaterais como ganho de peso e diabetes tipo 2. O efeito dos antipsicóticos sobre o cérebro em desenvolvimento também não é bem compreendido.

Como consequência, tem aumentado os processos contra os fabricantes de antipsicóticos por comercialização inadequada desses remédios. A Bristol-Myers Squibb concordou em pagar US$ 515 milhões para o governo dos EUA, em parte, pela venda de antipsicóticos a crianças e idosos. A Otsuka levou uma multa de US$ 4 milhões pela mesma razão.

A Eli Lilly teve que desembolsar US$ 1,4 bilhão (na época, a maior multa imposta contra uma corporação na história dos EUA) por promover o Zyprexa para depressão (antes de ser aprovado para esse fim) e também pela produção do filme "O mito da diabetes", um vídeo de treinamento que ensinava os representantes de vendas das farmacêuticas como minimizar o fato de que o remédio leva ao ganho de peso e pode causar diabetes.

A AstraZeneca pagou US$ 520 milhões sob acusação de esconder um estudo que mostrou que os usuários de Seroquel ganharam 5 kg, em média, por ano, enquanto a publicidade dizia que as pessoas perdiam peso com a droga, e também por comercializar o remédio como um tratamento para a depressão sem aprovação da FDA (agência norte-americana que regula fármacos e alimentos).
Agora que os antipsicóticos genéricos estão disponíveis, a expectativa é que o marketing sobre esses produtos seja reduzido e, consequentemente, as prescrições indevidas. Mas, por ora, a demanda por genéricos do Abilify, Seroquel, Zyprexa, e seus equivalentes nos EUA continua a todo vapor. Atingiu US$ 26,5 milhões ano passado. Já os danos causados pelos efeitos colaterais do uso inadvertido desses drogas ainda precisam ser contabilizados...

segunda-feira, abril 20, 2015

Choosing Wisely Brasil

Não, não voltei atrás na minha decisão de afastamento da discussão sobre conflitos de interesses na Medicina. Até pensei que, mesmo sem uma postura ativa em relação ao tema, iria continuar lendo muito sobre ele. Mas até isto tenho feito cada vez menos. Ando, cada vez mais, incomodado com a mistura de pautas ideológicas ou políticas. No Gracias e Medicos Sin Marca instigaram recentemente discussão importante (sobre mais um caso de possível corrupção corroendo a ciência médica) através do título Bio-capitalismo en acción. Assim tornarei-me (sim, eu também) impermeável a este debate.

Se a tentativa de dar uma moldura ideológica para tudo o que se quer apoiar ou destruir está presente em muitos espaços de disputa, neste especificamente anda insuportavelmente gritante. E com muitos "anti-capitalistas" suficientemente caras de pau para, nada mais, nada menos, estarem pura e simplesmente buscando o lucro, combatendo o lucro. São inúmeros os exemplos, de vendedores de palestras e livros à de produtos "naturais" e similares.

No fundo sempre valorizei esta discussão pelo resultado, que é a utilização de recursos desnecessários na saúde e suas múltiplas consequências negativas. Então mais recentemente vinha pensando em como continuar ajudando, mas de outra forma - com mais retorno pessoal, e com mais alcance. Conversando sobre isto com John Bulger, quem eu trouxe ao Brasil em 2014 para falar da Choosing Wisely Hospital Medicine, disse ele: "Quem sabe não investes na Choosing Wisely Brasil?"



Bulger concordou que os médicos dividem-se - com exceções, é claro - entre os impermeáveis ao debate sobre conflitos de interesse (maioria) e os convencidos de que a indústria farmacêutiva, os fármacos e a inovação tecnológica devem deixar de existir (minoria radical). Concordou que as sociedades médicas são o espelho da maioria dos médicos. Mas lembrou que a Choosing Wisely, ao dar o protagonismo às sociedades de especialidades, permite que minimize-se a utilização de recursos desnecessários na saúde, com potencial impacto global, mesmo considerando que as organizações escolham por tanginciar determinadas áreas ou assuntos, nas quais tenham conflitos de interesses mais relevantes, por exemplo. Como não acredito em mundo perfeito, como nunca imaginei resolver a utilização de recursos desnecessários na saúde, resolvi avançar na discussão com Bulger, que colocou-me em contato com Wendy Levinson, líder da Choosing Wisely International.

Para ser lançada ainda em abril de 2015, a Choosing Wisely Brasil surge como um projeto colaborativo, parceria minha com Luis Claudio Correia e Gustavo Gusso. O primeiro é co-fundador desde Blog, cardiologista, autor do Blog Medicina Baseada em Evidêncas e recém definido coordenador do programa choosing wisely da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Gusso é diretor científico da Sociedade Brasileira de Medicina da Família e Comunidade. A Choosing Wisely Brasil será uma iniciativa facilitada pelo Proqualis e protagonizada por sociedades de especialidades brasileiras, tendo SBC e SBMFC já comprometidas a emitir suas recomendações.

domingo, março 29, 2015

Uso de testosterona foi estimulado por campanhas de marketing, diz médico

O marketing da indústria associado à "frouxidão" das diretrizes das sociedades médicas e dos governos têm colaborado para que sintomas comuns do envelhecimento se transformem em "doenças inventadas", levando à reposição inadvertida dos hormônios testosterona e GH (hormônio do crescimento). É o que afirma o geriatra Thomas Perls, professor de medicina na Universidade de Boston, que publicou nesta semana artigo na revista da Sociedade Americana de Geriatria advertindo sobre os males do uso indevido desses hormônios.

* Matéria e entrevista de Cláudia Collucci, da Folha de São Paulo.

Folha - O sr. acredita que o alerta da FDA poderá frear essa "epidemia" de prescrições de hormônios?

Thomas Perls - Acho que a publicidade vai diminuir. E espero que artigos como o que acabamos de publicar alertem o público sobre os perigos dos hormônios nas terapias antienvelhecimento. Esses medicamentos só devem ser usados em condições ou doenças muito específicas e raras.

Por que os médicos continuam a prescrever essas drogas para fins não aprovados?

Porque os comerciantes continuam sendo bem sucedidos em convencer pessoas de que, supostamente, existem medicamentos que são uma maneira fácil e sem risco de se permanecer jovem.

A publicidade pode ser poderosa, especialmente se ela é interpretada por alguém que se pareça ou pretenda ser um especialista interessado em seu bem-estar.

No caso dos hormônios do crescimento e da testosterona para terapias antienvelhecimento, nada poderia estar mais longe da verdade.

O sr. diz que o marketing da testosterona e do hormônio de crescimento leva à mercantilização da doença. Como funciona?

Mercantilização da doença é basicamente a invenção de uma nova doença ou a tentativa de expandir a definição de uma doença existente para que mais pessoas acreditem que devam tomar um determinado medicamento ou obter um tratamento especial. Isso tudo combinado com campanha maciça de marketing. É o que acontece hoje no caso da testosterona e hormônio do crescimento.

No Brasil, não temos marketing de remédios direto ao consumidor como ocorre nos EUA. Ainda assim o sr. acredita que o marketing tenha um papel muito importante?

Mesmo nos Estados Unidos, os fabricantes de medicamentos e clínicas não podem fazer propaganda em massa dos hormônios de crescimento para fins de antienvelhecimento. Mas eles são comercializados a milhões de pessoas, tanto em nos EUA quanto no Brasil por meio da internet, publicidade em jornais e revistas e de médicos que aparecem em programas de entrevistas.

O sr. diz que, para muitos homens, a testosterona não cai com a idade. O que é possível fazer como prevenção?

Os homens mais velhos que estão aptos, e eu já vi muitos deles na praia de Copacabana, podem ter níveis normais de testosterona.

Se os níveis estão diminuídos, é porque existem fatores frequentemente associados com a obesidade, o tabagismo, sedentarismo e não dormir o suficiente.

Inverter esses problemas pode levar ao aumento dos níveis de testosterona. Por outro lado, porém, os níveis mais baixos não estão necessariamente associados com falta de resistência ou cansaço. Existe uma correlação muito pobre entre essas queixas e um nível de testosterona menor.

Qual o papel das sociedades médicas e das agências governamentais nessa "epidemia"?

As sociedades médicas profissionais, especialmente as que supervisionam o campo da endocrinologia, precisa ter critérios clínicos muito mais precisos para fazer um diagnóstico de uma doença que pode realmente se beneficiar da administração de testosterona, onde os benefícios superem os riscos como ataque cardíaco e acidente vascular cerebral. E os governos precisam estar atentos à publicidade e a venda irregular desses hormônios.
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