Sabe aquele jantar da indústria que você adora frequentar? Nova revisão Cochrane mostrou que pagamentos, brindes e refeições da indústria farmacêutica estão associados à prescrição de mais medicamentos, a maiores custos e a prescrições menos apropriadas. https://t.co/Vi7pMG5ZfC
— Vitor Borin P. de Souza (@vitorborin_) October 9, 2026
Ambicionamos aqui estimular ainda mais o debate acerca da relação entre a Medicina e as indústrias de medicamentos e tecnologias, e da forma como tem colocado em risco a credibilidade da Medicina Baseada em Evidências. Que consigamos viabilizar um espaço de diálogo altamente saudável, científico e construtivo.
sexta-feira, outubro 09, 2026
Sabe aquele jantar da indústria que você adora frequentar?
terça-feira, setembro 08, 2026
sexta-feira, agosto 21, 2026
Quando as relações humanas desafiam a autocalibração da Medicina
O ecossistema médico ainda demonstra uma capacidade bastante limitada de autocrítica e autorregulação. E isso não se explica apenas pelos conflitos de interesse mais evidentes ou graves — financeiros, comerciais ou eventualmente abusivos. Parte importante do problema nasce de mecanismos muito mais banais e socialmente mediados: relações pessoais, vínculos afetivos, pertencimento a grupos, necessidade de agradar colegas próximos ou dificuldade de confrontá-los, mesmo no espírito construtivo de questionamento sobre o qual a própria ciência deve se sustentar.
Um episódio recente ajuda a ilustrar isso. Em um congresso de uma especialidade médica consolidada, um profissional ligado a práticas alternativas recebeu espaço para apresentar ideias tecnicamente muito questionáveis. A justificativa informal para sua presença, porém, não estava propriamente na qualidade científica do conteúdo, mas no fato de ser alguém próximo: uma pessoa querida, conhecida do grupo organizador.
Esse tipo de situação amplia a própria noção de conflito de interesse. Nem todo conflito envolve dinheiro, indústria ou vantagem material. Existem também conflitos de lealdade, amizade, identidade de grupo e conveniência social — talvez ainda mais difíceis de reconhecer justamente porque fazem parte do cotidiano e frequentemente se confundem com valores legítimos das relações humanas.
Talvez esteja aí uma das razões pelas quais a autocalibração médica seja tão difícil. É relativamente fácil identificar e condenar o conflito distante e escandaloso; muito mais difícil é questionar aquilo que acontece entre pessoas com quem convivemos ou às quais nos sentimos ligados por alguma razão — ainda que seja pelo legítimo desejo de preservar uma convivência harmoniosa.
E o problema não termina na escolha de quem sobe ao palco de um congresso. Esses mecanismos todos, somados, ajudam a explicar por que é tão difícil para a própria Medicina estabelecer limites, hierarquizar intervenções e construir padrões técnicos suficientemente claros sobre o que deveria ocupar mais ou menos espaço na prática. Quando evidência, tradição, identidade profissional, relações pessoais, interesses econômicos e conveniências sociais se misturam, não surpreende que práticas de valor muito diferente acabem recebendo graus semelhantes de legitimidade.
O episódio, portanto, não escancarava apenas um conflito pontual. Escancarava a complexidade do desafio de regular um sistema no qual aquilo que deveria ser filtrado e hierarquizado tecnicamente é também continuamente moldado pelas relações humanas que o constituem. E talvez seja justamente essa mistura que ajude a explicar por que, em Medicina, é tão difícil não apenas estabelecer padrões, mas também definir com clareza o que deve ser priorizado, tolerado, questionado ou simplesmente deixado de lado.
quinta-feira, abril 23, 2026
terça-feira, abril 21, 2026
The Continuing Stream of Exercise Churnalism — Adam Cifu
Cerca de 10 anos atrás, criei um site chamado Flawed Science Times. Passei tempo demais nele, tornando-o quase indistinguível da seção semanal Science Times do New York Times. Minha ideia era escrever semanalmente sobre o que havia de errado na cobertura de ciência da saúde naquela semana.
Nos primeiros dias do Sensible Medicine, publicamos uma série sobre churnalism. Definimos isso como o relato, sem cuidado e sem curiosidade, de estudos biomédicos mal conduzidos. Argumentamos que esse tipo de jornalismo substitui a história real — por que um estudo é irrelevante ou o que ele realmente mostra — por uma narrativa fácil. Ainda escrevemos sobre isso de tempos em tempos.
Exercício
Antes de continuar, devo dizer:
Exercício é bom para você.
Há evidência extremamente forte de que ele previne mais doenças do que a maioria das pessoas consegue listar: obesidade, doença coronariana, diabetes, demência, câncer, depressão, entre outras.
Também é barato — mais barato do que muitos dos medicamentos modernos.
Todos deveriam encontrar uma forma segura de se exercitar tanto quanto possível, todos os dias.
O problema
A maioria dos artigos sobre exercício aborda uma questão que quase ninguém realmente precisa fazer:
“Se eu já estou me exercitando o máximo possível, há algo que posso fazer para tornar isso ainda melhor?”
Tênis e longevidade
Recentemente, o New York Times publicou um artigo afirmando que o tênis é o melhor esporte para longevidade.
Essa afirmação vem de um estudo dinamarquês publicado em 2018. É um bom exemplo de jornalismo ruim sobre exercício.
Pecado: ignorar plausibilidade
No estudo:
- Pessoas relataram seus hábitos de exercício
- Foram acompanhadas por cerca de 25 anos
Havia um problema importante:
- Muitas pessoas participavam de múltiplas atividades
- Os grupos não eram exclusivos
Ainda assim, os autores relataram que:
- Jogar tênis estava associado a mais de 9 anos adicionais de vida
- Natação a cerca de 3 anos
Isso não é plausível.
A diferença entre diferentes tipos de exercício não deveria ser maior do que a diferença entre fazer exercício e não fazer.
Pecado: confusão (confounding)
É muito mais provável que o resultado seja explicado por confusão.
Pessoas que jogam tênis:
- Tendem a ser mais ricas
- Têm melhor acesso a instalações
- Têm mais conexões sociais
- São, em geral, mais saudáveis desde o início
Além disso, jogar tênis exige:
- Acesso a quadras
- Tempo
- Outras pessoas ou dinheiro para pagar alguém
Ou seja, esse grupo já é diferente.
Pecado: “disclaimer” seguido de desvio
O artigo observa que:
“Esses estudos não provam causalidade.”
Mas rapidamente passa a citar especialistas dizendo que:
“O tênis pode ser especialmente benéfico.”
Esse padrão é comum:
- Primeiro, admite-se a limitação
- Depois, apresenta-se a conclusão como se fosse válida
Pecado: falta de curiosidade
O problema maior é a falta de curiosidade.
Os jornalistas poderiam perguntar:
- Por que esse resultado parece implausível?
- Qual é o papel da renda?
- Qual é o papel das conexões sociais?
- Qual é o papel da saúde inicial?
Mas essas perguntas raramente são feitas.
Conclusão
Exercício é bom.
Mas a cobertura sobre exercício frequentemente não é.
Ela transforma estudos limitados em conclusões amplas e enganosas.
Ideia central
Se você não se exercita, deveria começar.
Se você já se exercita, deveria continuar.
https://www.sensible-med.com/p/the-continuing-stream-of-exercise
terça-feira, março 24, 2026
Representante de laboratório conseguiu pegar os médicos da nossa clínica juntos ontem.
— Glauber (@glauber_doc) March 24, 2026
Falou que era pra dar apoio pra ele nas vendas que assim a gente conseguiria lanchinho, e inscrição em congresso. E que era importante o receituário com o medicamento porque assim eles…
domingo, março 08, 2026
O Paradoxo do VBHC e os Conflitos de Interesses 2.0
O que explicaria, então, vermos hoje esses mesmos profissionais sentados à mesa com fontes pagadoras que, desesperadamente, buscam o controle de custos? Estariam as fontes pagadoras mergulhadas em uma onda de “inocência” ou isso reflete apenas uma mudança na lógica comercial?
A Divergência de Visões: Da Clínica à Corporativa
Para um paciente com artrite, por exemplo, o sucesso pode significar alcançar dor zero. Já para um pianista com a mesma condição, o valor pode residir na preservação da mobilidade dos dedos, mesmo que persista alguma dor residual. Não há certo ou errado absoluto: o valor é individual e depende da história, das prioridades e do projeto de vida de cada pessoa.
Na visão corporativa da VBHC, por outro lado, o destino muitas vezes é completamente padronizado, tal como o caminho para atingi-lo. Define-se arbitrariamente uma meta que atende à média, mas não necessariamente o indivíduo. Se o paciente deseja tocar piano, mas o protocolo foca apenas na redução da dor, o sistema considera o objetivo atingido a partir de analgesia apenas. Reflete uma transição da “trilha” — um caminho a ser fortemente sugestionado — para “trilho”, uma rota impossível de desviar.
“...baseiam-se em imprescindível raciocínio probabilístico e no comportamento médio dos resultados das intervenções. Em decisão compartilhada com profissional de confiança, devem ser recalibradas, considerando condição clínica específica, valores e preferências do paciente.”
Mecanismos de Parceria
* Neles, o valor passa a ser o que a essas novas modalidades de parceria decidem que é, muitas vezes ignorando desfechos que não interessam financeiramente a alguma das partes, ou desfechos de interesse dos pacientes mas eventualmente não alinhados.
Parte do Lado Sombrio: Seleção de Riscos e Desincentivo à Complexidade
| Valor Clínico | Valor Corporativo | |
| Definição principal de Sucesso | O que o paciente valoriza para sua vida | O que se define como métrica |
| O Insucesso | O sofrimento não mitigado | O custo adicional |
| Papel do Médico | Intérprete e conselheiro | Executor e garantidor de metas |
| Papel do Paciente | Sujeito com valores próprios | Objeto de estudo de fluxo e desfechos |
| Flexibilidade | De moderada a alta: dentro do possível, o plano terapêutico se adapta ao indivíduo | O paciente deve caber no acordo estabelecido |
Comentários finais
Institucionalizar a Exclusão Invisível: Fomentando ainda mais uma barreira para o paciente complexo, o idoso poliqueixoso ou o portador de doenças que não "cabem" dentro do rol de condições pactuadas;
Atrapalhar a Autonomia Médica Responsável: Reduzindo o profissional a um burocrata seguidor de referenciais;
Segmentar a Saúde Privada: Consolidando essa "saúde de duas velocidades" — uma linha de montagem eficiente para casos selecionados, e um vácuo de interesse para tudo o que exige humanidade, tempo e incerteza.
A verdadeira eficiência não está em "selecionar quem e como tratar", mas em garantir que a inovação tecnológica da indústria e a sustentabilidade das fontes pagadoras sirvam ao seu propósito último: a biografia e a dignidade do paciente. Sem a recalibração constante pelos valores do indivíduo, os "escritório de valor" correm o risco de se tornar apenas o novo nome para a antiga negação de cobertura.
Leituras complementares:
quinta-feira, fevereiro 26, 2026
O padrão é velho conhecido. Nada aqui chega a ser surpresa; trata-se de uma história que se repete. A pergunta é por que ela se renova — e até se perpetua. A resposta é complexa, mas uma explicação contemporânea está no fato de que a maior ameaça pseudocientífica da atualidade se alimenta de um discurso anti-indústria sustentado por meias verdades. Enquanto isso, o outro lado não tem sabido lidar com esse fenômeno: age como se a indústria não pudesse ser criticada. O resultado é que ela passa a ser, mais do que nunca, estimulada a não melhorar.
sábado, janeiro 31, 2026
quinta-feira, dezembro 11, 2025
Por que tanta desconfiança com a medicina tradicional?
Nas redes, a propaganda das novas drogas para perda de peso segue um roteiro, no mínimo, questionável. Elas são, de fato, adventos comemoráveis sob várias perspectivas — ninguém nega ou deve negar à luz das evidências atuais. Mas o que se observa lá é um esforço constante de ampliar vantagens e, principalmente, abrir outras.
Muitas postagens lembram versões invertidas das análises do Blog do Luis.
Mas não significa que haja inverdades completas lá. O que há é a adoção fiel de uma cartilha de comunicação historicamente utilizada pela indústria farmacêutica: marketing inteligente com hype nas mensagens com maior potencial de visualização e uma calibragem nas “letras pequenas”.
Alguém poderia argumentar que o público leigo não domina os detalhes complexos que o Luis explica tão bem a profissionais — e que, portanto, esse tipo de exagero, muito bem travestido de científico, não afetaria a imagem da medicina perante eles. Mas o hype é perceptível a qualquer pessoa atenta. E, quando percebido, podem se instalar dúvidas: se as promessas soam boas demais, por que exatamente uma instituição médica está comunicando assim?
É desse desalinhamento entre conteúdo e forma que nasce parte da desconfiança crescente: não pela ausência de benefícios reais, mas pelo modo como são inflados, embalados e entregues, afastando a medicina da sobriedade e do rigor que deveriam ser sua marca. E, nesse ambiente fragilizado, um efeito colateral se torna inevitável: entre tantas narrativas mal calibradas, as pessoas acabam se sentindo no direito de questionar — equivocadamente — até mesmo vacinas, por percebê-las como apenas mais uma intervenção comunicada dentro de um sistema que já não inspira tanta confiança e quase somente vende soluções irretocáveis ou, com igual entusiasmo, a necessidade de si mesmo.
quinta-feira, outubro 23, 2025
segunda-feira, setembro 08, 2025
Sociedades médicas que estampam marcas de laboratórios em peças de promoção de vacinas — sobretudo quando se trata de materiais simples, equivalentes a tantos outros que circulam espontaneamente pela internet — acabam, inevitavelmente, abrindo espaço para questionamentos:
- Se não há parceria comercial nem participação do laboratório na elaboração do conteúdo, qual seria então o objetivo, senão oferecer uma espécie de “caridade reputacional”, permitindo que a marca se associe a uma conquista científica sólida — o que ainda não é questionado pela maioria — e, historicamente, dotada de maior credibilidade que a própria indústria farmacêutica? Afinal, quem estaria realmente ajudando quem?
- Se, ao contrário, existe de fato uma parceria comercial, ela se limitaria apenas a materiais que muitos perfis individuais já produzem e compartilham em massa nas redes sociais? Para onde fluem, afinal, todos valores e interesses envolvidos? E qual o verdadeiro propósito dessa parceria específica, considerando — e não custa repetir — que vacinas ainda gozam, embora não se saiba até quando, de mais confiança pública do que os representantes da Big Pharma?
segunda-feira, setembro 01, 2025
Psiquiatras que trabalharam no DSM-5 receberam US$ 14 milhões em financiamento não divulgado da indústria farmacêutica... Leia artigo do BMJ.
quinta-feira, agosto 07, 2025
Não é preciso negar. Embora seja menos abrangente do que oportunistas sugerem, a questão existe — e ganha com o enfrentamento. Mais do tema em https://t.co/9MnMKL185N pic.twitter.com/LHPi4K5QjR
— Choosing Wisely Brasil (@ChooseWiselyBR) August 7, 2025
terça-feira, julho 29, 2025
segunda-feira, julho 28, 2025
Escrutínios saudáveis, colaborativos e, sobretudo, autocríticos são mesmo possíveis?
sexta-feira, julho 11, 2025
segunda-feira, junho 16, 2025
terça-feira, junho 10, 2025
Sobre a demissão dos pediatras do comitê de vacinas do CDC
As preocupações levantadas por todos acima são mais do que legítimas — proteger a ciência e evitar distorções impostas por pressões políticas é fundamental. Mas isso não nos impede de olhar para o outro lado do espelho: os conflitos de interesse são reais (sem que estejamos afirmando aqui que alguém tenha sucumbido a eles em decisões concretas). É fato público que houve recebimento de honorários por consultorias científicas e palestras financiadas por fabricantes de vacinas.
Não se sabe se os pediatras recentemente demitidos estavam entre os sete membros citados no relatório de 2009 do Office of Inspector General (HHS/OIG) e que votaram em matérias nas quais, segundo o órgão, deveriam ter se abstido. Ainda assim, resta claro que, mesmo quando não distorcem diretamente uma decisão clínica ou recomendação técnica, os conflitos de interesse no mínimo potencializam ruídos — e abrem espaços ambíguos, zonas que podem ser exploradas até mesmo por oportunistas mal-intencionados. Há aí uma vulnerabilidade, não só ética, mas comunicacional: o potencial descrédito que nasce da possibilidade de comprometimento pode ser tão corrosivo quanto o comprometimento em si. Mesmo quando essa corrosão ocorre injustamente. Nesta história acima, bastou concentrar poder do lado errado.
Isso nos leva a uma pergunta incômoda, mas inevitável: devemos normalizar os conflitos de interesse como parte inerente da relação entre ciência e indústria? Ou, ao contrário, reconhecê-los como um risco sistêmico — inclusive para os mais íntegros — e tratá-los com a seriedade e o cuidado que a integridade científica exige? Até que ponto esses pediatras comprometeriam sua qualidade de vida e suas possibilidades profissionais se limitassem sua relação com a indústria exclusivamente à participação em pesquisas clínicas patrocinadas? Precisavam? Eis a questão.
Conspiradores só prosperam onde há terreno fértil: a desconfiança. E essa desconfiança, em parte, é consequência de como temos conduzido a Medicina.










