sexta-feira, outubro 09, 2026

Sabe aquele jantar da indústria que você adora frequentar?


sexta-feira, agosto 21, 2026

Quando as relações humanas desafiam a autocalibração da Medicina

O ecossistema médico ainda demonstra uma capacidade bastante limitada de autocrítica e autorregulação. E isso não se explica apenas pelos conflitos de interesse mais evidentes ou graves — financeiros, comerciais ou eventualmente abusivos. Parte importante do problema nasce de mecanismos muito mais banais e socialmente mediados: relações pessoais, vínculos afetivos, pertencimento a grupos, necessidade de agradar colegas próximos ou dificuldade de confrontá-los, mesmo no espírito construtivo de questionamento sobre o qual a própria ciência deve se sustentar.

Um episódio recente ajuda a ilustrar isso. Em um congresso de uma especialidade médica consolidada, um profissional ligado a práticas alternativas recebeu espaço para apresentar ideias tecnicamente muito questionáveis. A justificativa informal para sua presença, porém, não estava propriamente na qualidade científica do conteúdo, mas no fato de ser alguém próximo: uma pessoa querida, conhecida do grupo organizador.

Esse tipo de situação amplia a própria noção de conflito de interesse. Nem todo conflito envolve dinheiro, indústria ou vantagem material. Existem também conflitos de lealdade, amizade, identidade de grupo e conveniência social — talvez ainda mais difíceis de reconhecer justamente porque fazem parte do cotidiano e frequentemente se confundem com valores legítimos das relações humanas.

Talvez esteja aí uma das razões pelas quais a autocalibração médica seja tão difícil. É relativamente fácil identificar e condenar o conflito distante e escandaloso; muito mais difícil é questionar aquilo que acontece entre pessoas com quem convivemos ou às quais nos sentimos ligados por alguma razão — ainda que seja pelo legítimo desejo de preservar uma convivência harmoniosa.

E o problema não termina na escolha de quem sobe ao palco de um congresso. Esses mecanismos todos, somados, ajudam a explicar por que é tão difícil para a própria Medicina estabelecer limites, hierarquizar intervenções e construir padrões técnicos suficientemente claros sobre o que deveria ocupar mais ou menos espaço na prática. Quando evidência, tradição, identidade profissional, relações pessoais, interesses econômicos e conveniências sociais se misturam, não surpreende que práticas de valor muito diferente acabem recebendo graus semelhantes de legitimidade.

O episódio, portanto, não escancarava apenas um conflito pontual. Escancarava a complexidade do desafio de regular um sistema no qual aquilo que deveria ser filtrado e hierarquizado tecnicamente é também continuamente moldado pelas relações humanas que o constituem. E talvez seja justamente essa mistura que ajude a explicar por que, em Medicina, é tão difícil não apenas estabelecer padrões, mas também definir com clareza o que deve ser priorizado, tolerado, questionado ou simplesmente deixado de lado.

terça-feira, abril 21, 2026

The Continuing Stream of Exercise Churnalism — Adam Cifu


Cerca de 10 anos atrás, criei um site chamado Flawed Science Times. Passei tempo demais nele, tornando-o quase indistinguível da seção semanal Science Times do New York Times. Minha ideia era escrever semanalmente sobre o que havia de errado na cobertura de ciência da saúde naquela semana.

Nunca publiquei o site — provavelmente foi melhor assim, já que suspeito que eu teria ficado deprimido e possivelmente enfrentado problemas legais.

Nos primeiros dias do Sensible Medicine, publicamos uma série sobre churnalism. Definimos isso como o relato, sem cuidado e sem curiosidade, de estudos biomédicos mal conduzidos. Argumentamos que esse tipo de jornalismo substitui a história real — por que um estudo é irrelevante ou o que ele realmente mostra — por uma narrativa fácil. Ainda escrevemos sobre isso de tempos em tempos.


Exercício

Antes de continuar, devo dizer:

Exercício é bom para você.

Há evidência extremamente forte de que ele previne mais doenças do que a maioria das pessoas consegue listar: obesidade, doença coronariana, diabetes, demência, câncer, depressão, entre outras.

Também é barato — mais barato do que muitos dos medicamentos modernos.

Todos deveriam encontrar uma forma segura de se exercitar tanto quanto possível, todos os dias.


O problema

A maioria dos artigos sobre exercício aborda uma questão que quase ninguém realmente precisa fazer:

“Se eu já estou me exercitando o máximo possível, há algo que posso fazer para tornar isso ainda melhor?”


Tênis e longevidade

Recentemente, o New York Times publicou um artigo afirmando que o tênis é o melhor esporte para longevidade.

Essa afirmação vem de um estudo dinamarquês publicado em 2018. É um bom exemplo de jornalismo ruim sobre exercício.


Pecado: ignorar plausibilidade

No estudo:

  • Pessoas relataram seus hábitos de exercício
  • Foram acompanhadas por cerca de 25 anos

Havia um problema importante:

  • Muitas pessoas participavam de múltiplas atividades
  • Os grupos não eram exclusivos

Ainda assim, os autores relataram que:

  • Jogar tênis estava associado a mais de 9 anos adicionais de vida
  • Natação a cerca de 3 anos

Isso não é plausível.

A diferença entre diferentes tipos de exercício não deveria ser maior do que a diferença entre fazer exercício e não fazer.


Pecado: confusão (confounding)

É muito mais provável que o resultado seja explicado por confusão.

Pessoas que jogam tênis:

  • Tendem a ser mais ricas
  • Têm melhor acesso a instalações
  • Têm mais conexões sociais
  • São, em geral, mais saudáveis desde o início

Além disso, jogar tênis exige:

  • Acesso a quadras
  • Tempo
  • Outras pessoas ou dinheiro para pagar alguém

Ou seja, esse grupo já é diferente.


Pecado: “disclaimer” seguido de desvio

O artigo observa que:

“Esses estudos não provam causalidade.”

Mas rapidamente passa a citar especialistas dizendo que:

“O tênis pode ser especialmente benéfico.”

Esse padrão é comum:

  • Primeiro, admite-se a limitação
  • Depois, apresenta-se a conclusão como se fosse válida

Pecado: falta de curiosidade

O problema maior é a falta de curiosidade.

Os jornalistas poderiam perguntar:

  • Por que esse resultado parece implausível?
  • Qual é o papel da renda?
  • Qual é o papel das conexões sociais?
  • Qual é o papel da saúde inicial?

Mas essas perguntas raramente são feitas.


Conclusão

Exercício é bom.

Mas a cobertura sobre exercício frequentemente não é.

Ela transforma estudos limitados em conclusões amplas e enganosas.


Ideia central

Se você não se exercita, deveria começar.

Se você já se exercita, deveria continuar.

https://www.sensible-med.com/p/the-continuing-stream-of-exercise

terça-feira, março 24, 2026

 

domingo, março 08, 2026

O Paradoxo do VBHC e os Conflitos de Interesses 2.0

A literatura na área da saúde historicamente associa médicos umbilicalmente atrelados a farmacêuticas, atuando de diferentes formas, ao aumento na utilização de recursos. Para quem tiver dúvidas, recomendo a leitura das postagens mais antigas deste blog.

O que explicaria, então, vermos hoje esses mesmos profissionais sentados à mesa com fontes pagadoras que, desesperadamente, buscam o controle de custos? Estariam as fontes pagadoras mergulhadas em uma onda de “inocência” ou isso reflete apenas uma mudança na lógica comercial?


Nas mídias sociais, a Saúde Baseada em Valor (VBHC) é frequentemente apresentada como um cenário em que todos ganham, sempre. Na prática, porém, todo rearranjo de poder e de dinheiro cria novos “perdedores” ou, no mínimo, transfere prejuízo ou risco para algum elo mais frágil da cadeia. Se indústria e pagador estão apertando as mãos, alguém necessariamente está ficando mais distante da mesa de negociação — o que pode trazer consequências justas ou injustas, a depender do que está sendo abordado, do tratamento envolvido e, eventualmente, até mesmo das "doses" empregas.

Hospitais, por exemplo, historicamente lucram com a ineficiência: quanto mais tempo o paciente permanece internado e mais intervenções realiza dentro da instituição, maior tende a ser a receita. Faz sentido, portanto, que novos modelos enfrentem esse tipo de distorção. Da mesma forma, é razoável discutir arranjos que limitem uma autonomia médica irrestrita e irracional — como a de quem insiste em prescrever Ivermectina ou Poliamina simplesmente porque acredita ou quer.

A Divergência de Visões: Da Clínica à Corporativa


Para alguns pioneiros do “valor em saúde” — oriundos de uma mentalidade eminentemente clínica e fortemente influenciada pela Epidemiologia Clínica e pela Medicina Baseada em Evidências (MBE) —, ainda que o termo “valor” nem sempre fosse explicitamente utilizado, aquilo que se busca como ponto de chegada precisa ser uma construção biográfica. O desfecho de maior relevância será aquele definido pelo próprio paciente, dentro dos limites técnicos e éticos.

Para um paciente com artrite, por exemplo, o sucesso pode significar alcançar dor zero. Já para um pianista com a mesma condição, o valor pode residir na preservação da mobilidade dos dedos, mesmo que persista alguma dor residual. Não há certo ou errado absoluto: o valor é individual e depende da história, das prioridades e do projeto de vida de cada pessoa.

Na visão corporativa da VBHC, por outro lado, o destino muitas vezes é completamente padronizado, tal como o caminho para atingi-lo. Define-se arbitrariamente uma meta que atende à média, mas não necessariamente o indivíduo. Se o paciente deseja tocar piano, mas o protocolo foca apenas na redução da dor, o sistema considera o objetivo atingido a partir de analgesia apenas. Reflete uma transição da “trilha” — um caminho a ser fortemente sugestionado — para “trilho”, uma rota impossível de desviar. 

A Choosing Wisely, por exemplo, nasceu para estimular o raciocínio probabilístico, a decisão compartilhada e, a partir disso, escolhas acertadas. Tanto que a Choosing Wisely Brasil traz, no rodapé de todas as suas listas de recomendações, a seguinte observação:
“...baseiam-se em imprescindível raciocínio probabilístico e no comportamento médio dos resultados das intervenções. Em decisão compartilhada com profissional de confiança, devem ser recalibradas, considerando condição clínica específica, valores e preferências do paciente.”
Apesar da linguagem deliberadamente contundente que orientamos na redação das recomendações propriamente ditas, a iniciativa não pretende transformar recomendações em trilhos. Ou seja, embora desestimule diversas práticas, não descarta seu uso em situações excepcionais — desde que amparado por uma autonomia responsável, construída e pactuada entre profissional e paciente. Até porque, na Choosing Wisely, sabemos que o uso racional de recursos e de-implementação não se garantem apenas por medidas top-down; dependem, e muito, de motivação intrínseca dos envolvidos.

Mecanismos de Parceria


Para entender como essas parcerias entre farmacêuticas e fontes pagadoras funcionam na prática, precisamos olhar para os seus "Acordos de Compartilhamento de Risco". Os do tipo 'Performance-Based' constituem o arranjo mais comum envolvendo terapias de alto custo, como biológicos. A farmacêutica garante que, se o medicamento não atingir o desfecho clínico pré-acordado, devolverá, direta ou indiretamente, parte do valor pago. Em contrapartida, garante a incorporação do produto e blinda a concorrência.

Já os acordos que envolvem a 'Integração de Evidências de Mundo Real' são espaços férteis para os tais "Conflitos de Interesses 2.0*", além de estarem sujeitos aos vieses e violações que historicamente afetam pesquisas e iniciativas financiadas pela indústria. Evidências de mundo real não substituem, até o momento, as ferramentas tradicionais de prova de conceito e comparação terapêutica, e carecem de soluções integradas que garantam a integridade científica outrora não garantida. 
* Neles, o valor passa a ser o que a essas novas modalidades de parceria decidem que é, muitas vezes ignorando desfechos que não interessam financeiramente a alguma das partes, ou desfechos de interesse dos pacientes mas eventualmente não alinhados.
Nestes arranjos, o escritório de valor ganha previsibilidade de custos e métricas de qualidade para exibir; a farmacêutica ganha acesso, fidelidade à marca e dados para validar seu próprio produto.

Parte do Lado Sombrio: Seleção de Riscos e Desincentivo à Complexidade


Muitas vezes, "gerar valor" torna-se um eufemismo para "parar de pagar pelo que não é controlável", empurrando a conta para terceiros diversos, entre eles as famílias ou o sistema público. Como os acordos de risco possuem critérios rígidos de inclusão (à semelhança de ensaios clínicos), perfis de pacientes como idosos, com múltiplas comorbidades ou com baixa adesão interessam menos. Isso gera um desincentivo à complexidade. Perde-se o interesse em aceitar casos de altíssimo risco ou alto grau de incerteza / baixa previsibilidade. O sistema acaba empurrando parte da população para as margens das decisões estratégicas, criando uma saúde de duas velocidades dentro do setor privado. Acho que senti isso na pele quando minha mãe, já idosa e sem qualquer condição “lucrativa”, passou a ser hospitalizada com mais frequência no final da vida. É uma percepção que também carrego como pai e como marido de alguém que trabalha com pacientes pediátricos: muitas vezes, as crianças parecem interessar ao hospital apenas quando colocadas na UTI. E ainda cabe agradecer aos que oferecem assim, porque muitos serviços já fecharam completamente seus espaços pediátricos.

Síntese das diferenças - incompleta, simplória e, eventualmente, injusta, como quase todo assunto complexo colocado em tabela dessa natureza


Valor ClínicoValor Corporativo
Definição principal de Sucesso O que o paciente valoriza para sua vida O que se define como métrica
O Insucesso O sofrimento não mitigado O custo adicional 
Papel do Médico Intérprete e conselheiro  Executor e garantidor de metas
Papel do Paciente Sujeito com valores próprios Objeto de estudo de fluxo e desfechos
Flexibilidade De moderada a alta: dentro do possível, o plano terapêutico se adapta ao indivíduo
 O paciente deve caber no acordo estabelecido

Comentários finais


É justo que novos modelos enfrentem a ineficiência hospitalar e a autonomia médica inapropriada. Contudo, o risco atual é a substituição da Medicina Baseada em Evidências e da Decisão Compartilhada por uma "Medicina Baseada em Conveniência Financeira", onde o valor passa a ser decidido unilateralmente por parceiros financeiros que podem ignorar o que não lhes convém.

O risco reside na consolidação de um ecossistema onde o valor passa a ser tornar um produto de prateleira, empacotado em acordos que atendem apenas aos interesses de quem paga e de quem vende (quando não passam a ser o mesmo ente). Ao transformar o cuidado em um trilho rígido e focado na lógica corporativa, o sistema corre o risco de:
  • Institucionalizar a Exclusão Invisível: Fomentando ainda mais uma barreira para o paciente complexo, o idoso poliqueixoso ou o portador de doenças que não "cabem" dentro do rol de condições pactuadas; 

  • Atrapalhar a Autonomia Médica Responsável: Reduzindo o profissional a um burocrata seguidor de referenciais;

  • Segmentar a Saúde Privada: Consolidando essa "saúde de duas velocidades" — uma linha de montagem eficiente para casos selecionados, e um vácuo de interesse para tudo o que exige humanidade, tempo e incerteza.

A verdadeira eficiência não está em "selecionar quem e como tratar", mas em garantir que a inovação tecnológica da indústria e a sustentabilidade das fontes pagadoras sirvam ao seu propósito último: a biografia e a dignidade do paciente. Sem a recalibração constante pelos valores do indivíduo, os "escritório de valor" correm o risco de se tornar apenas o novo nome para a antiga negação de cobertura.


Leituras complementares:

quinta-feira, fevereiro 26, 2026

O padrão é velho conhecido. Nada aqui chega a ser surpresa; trata-se de uma história que se repete. A pergunta é por que ela se renova — e até se perpetua. A resposta é complexa, mas uma explicação contemporânea está no fato de que a maior ameaça pseudocientífica da atualidade se alimenta de um discurso anti-indústria sustentado por meias verdades. Enquanto isso, o outro lado não tem sabido lidar com esse fenômeno: age como se a indústria não pudesse ser criticada. O resultado é que ela passa a ser, mais do que nunca, estimulada a não melhorar. 

 


Alguém acredita?


 

quinta-feira, dezembro 11, 2025

Por que tanta desconfiança com a medicina tradicional?

Tomemos um exemplo recente: de uma das sociedades médicas tradicionais atuantes no campo da obesidade.

Nas redes, a propaganda das novas drogas para perda de peso segue um roteiro, no mínimo, questionável. Elas são, de fato, adventos comemoráveis sob várias perspectivas — ninguém nega ou deve negar à luz das evidências atuais. Mas o que se observa lá é um esforço constante de ampliar vantagens e, principalmente, abrir outras.

Muitas postagens lembram versões invertidas das análises do Blog do Luis.

Mas não significa que haja inverdades completas lá. O que há é a adoção fiel de uma cartilha de comunicação historicamente utilizada pela indústria farmacêutica: marketing inteligente com hype nas mensagens com maior potencial de visualização e uma calibragem nas “letras pequenas”.

Alguém poderia argumentar que o público leigo não domina os detalhes complexos que o Luis explica tão bem a profissionais — e que, portanto, esse tipo de exagero, muito bem travestido de científico, não afetaria a imagem da medicina perante eles. Mas o hype é perceptível a qualquer pessoa atenta. E, quando percebido, podem se instalar dúvidas: se as promessas soam boas demais, por que exatamente uma instituição médica está comunicando assim?

É desse desalinhamento entre conteúdo e forma que nasce parte da desconfiança crescente: não pela ausência de benefícios reais, mas pelo modo como são inflados, embalados e entregues, afastando a medicina da sobriedade e do rigor que deveriam ser sua marca. E, nesse ambiente fragilizado, um efeito colateral se torna inevitável: entre tantas narrativas mal calibradas, as pessoas acabam se sentindo no direito de questionar — equivocadamente — até mesmo vacinas, por percebê-las como apenas mais uma intervenção comunicada dentro de um sistema que já não inspira tanta confiança e quase somente vende soluções irretocáveis ou, com igual entusiasmo, a necessidade de si mesmo.

segunda-feira, setembro 08, 2025

Sociedades médicas que estampam marcas de laboratórios em peças de promoção de vacinas — sobretudo quando se trata de materiais simples, equivalentes a tantos outros que circulam espontaneamente pela internet — acabam, inevitavelmente, abrindo espaço para questionamentos:

  • Se não há parceria comercial nem participação do laboratório na elaboração do conteúdo, qual seria então o objetivo, senão oferecer uma espécie de “caridade reputacional”, permitindo que a marca se associe a uma conquista científica sólida — o que ainda não é questionado pela maioria — e, historicamente, dotada de maior credibilidade que a própria indústria farmacêutica? Afinal, quem estaria realmente ajudando quem?
  • Se, ao contrário, existe de fato uma parceria comercial, ela se limitaria apenas a materiais que muitos perfis individuais já produzem e compartilham em massa nas redes sociais? Para onde fluem, afinal, todos valores e interesses envolvidos? E qual o verdadeiro propósito dessa parceria específica, considerando — e não custa repetir — que vacinas ainda gozam, embora não se saiba até quando, de mais confiança pública do que os representantes da Big Pharma?
Ignorar que tais dúvidas são legítimas enfraquece a confiança da sociedade na Medicina. Mais grave ainda é quando, em vez de responder com transparência, transfere-se para a própria sociedade a responsabilidade por sua desconfiança.

segunda-feira, setembro 01, 2025

Psiquiatras que trabalharam no DSM-5 receberam US$ 14 milhões em financiamento não divulgado da indústria farmacêutica... Leia artigo do BMJ.

quinta-feira, agosto 07, 2025

 

segunda-feira, julho 28, 2025

Escrutínios saudáveis, colaborativos e, sobretudo, autocríticos são mesmo possíveis?

Muitos dos que eu admirava, na época em que me debruçava mais intensamente sobre conflitos de interesse na saúde, acabaram estabelecendo suas próprias relações - e conflitos - com negócios envolvidos em indenizações milionárias sustentadas por evidências tão frágeis quanto aquelas que antes criticavam. Já entre nomes associados à SBE, desvios também foram comuns quando os questionamentos passaram a recair sobre aquilo que faziam ou acreditavam.

Vinay Prassad, de livros memoráveis, tornou-se um exemplo quase caricatural de descalibragem movida por certezas. E seus parceiros, antes implacáveis nas críticas a terceiros, agora parecem constrangidos a exercê-las — como se precisassem poupar o amigo e até mesmo o pessoal hoje no entorno dele.

Isso tudo lança dúvidas incômodas sobre nossa real capacidade de sustentar escrutínios saudáveis, colaborativos e, sobretudo, autocríticos — pilares da filosofia da ciência. E ajuda a compreender tantas dinâmicas que acabam por proteger práticas médicas questionáveis, obrigando-nos a reconhecer que, sim, nossas relações sociais e outras necessidades pessoais podem ser tão importantes quanto a precisão das informações em um campo específico do conhecimento — especialmente quando lidamos com escolhas envolvendo caminhos apenas marginalmente piores, cujas consequências, muitas vezes, só se revelam muito tempo depois, e ainda por cima não são determinísticas. 

terça-feira, junho 10, 2025

Sobre a demissão dos pediatras do comitê de vacinas do CDC


As preocupações levantadas por todos acima são mais do que legítimas — proteger a ciência e evitar distorções impostas por pressões políticas é fundamental. Mas isso não nos impede de olhar para o outro lado do espelho: os conflitos de interesse são reais (sem que estejamos afirmando aqui que alguém tenha sucumbido a eles em decisões concretas). É fato público que houve recebimento de honorários por consultorias científicas e palestras financiadas por fabricantes de vacinas.

Não se sabe se os pediatras recentemente demitidos estavam entre os sete membros citados no relatório de 2009 do Office of Inspector General (HHS/OIG) e que votaram em matérias nas quais, segundo o órgão, deveriam ter se abstido. Ainda assim, resta claro que, mesmo quando não distorcem diretamente uma decisão clínica ou recomendação técnica, os conflitos de interesse no mínimo potencializam ruídos —  e abrem espaços ambíguos, zonas que podem ser exploradas até mesmo por oportunistas mal-intencionados. Há aí uma vulnerabilidade, não só ética, mas comunicacional: o potencial descrédito que nasce da possibilidade de comprometimento pode ser tão corrosivo quanto o comprometimento em si. Mesmo quando essa corrosão ocorre injustamente. Nesta história acima, bastou concentrar poder do lado errado. 

Isso nos leva a uma pergunta incômoda, mas inevitável: devemos normalizar os conflitos de interesse como parte inerente da relação entre ciência e indústria? Ou, ao contrário, reconhecê-los como um risco sistêmico — inclusive para os mais íntegros — e tratá-los com a seriedade e o cuidado que a integridade científica exige? Até que ponto esses pediatras comprometeriam sua qualidade de vida e suas possibilidades profissionais se limitassem sua relação com a indústria exclusivamente à participação em pesquisas clínicas patrocinadas? Precisavam? Eis a questão.

Conspiradores só prosperam onde há terreno fértil: a desconfiança. E essa desconfiança, em parte, é consequência de como temos conduzido a Medicina.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...