segunda-feira, outubro 08, 2012

Por que exatamente as farmacêuticas investem em congressos médicos?

Há alguns anos penso o assunto e o estudo, quando possível. E minha resposta a esta pergunta vem pendendo para uma diferente da original. Não há uma só resposta, mas inicialmente eu acreditava que a principal razão seria exercer influência direta através da programação, oferecendo propaganda enganosa mesmo. Entretanto, foram poucas as vezes que vi isto acontecer: a maioria dos médicos não aceita - nem os que assistem, nem mesmo os que palestram! O tipo de viés que eventualmente compromete informação nos congressos provavelmente nasceu muito antes, na produção do conhecimento científico, problemas que afetam as pesquisas e seus resultados em diversas etapas, a seleção do que publicar e do não é publicado, a retórica das conclusões já a partir das publicações originais e seus editoriais, a confiabilidade dos guidelines, entre outros. De tal forma que a informação transmitida em eventos e que potencialmente favorece “os excessos” (dos diagnósticos aos tratamentos) não costuma ser inventada para aquele exato momento de estar no púlpito para falar às massas. Lembro do tempo que dei algumas aulas e promovi workshops sobre EGDT na sepse, inclusive em parceria com a empresa que vende a cara tecnologia usada no bundle de tratamento. Existe a possibilidade do principal ensaio clínico que suporta a abordagem ter sido literalmente forjado. A partir de uma denúncia no WSJ, há vários indícios de que possa ser verdade.


EGDT trial, NEJM, by Rivers et al, 2001

—Pacientes teriam “desaparecido” do estudo após processo de randomização.

—No momento da publicação do ECR em 2001, o hospital era quem detinha parte dos direitos da tecnologia usada no grupo EGDT. Rivers havia recém transferido direitos à instituição.

—O NEJM, no momento do lançamento do trial, não publicou nenhuma referência à qualquer possível conflito de interesse do autor principal - até porque “não mais existiam”.

—Rivers e seu hospital teriam recebido pelo menos $404.000 da Edwards Lifesciences.
 

Eu não estimulava nada que eu não acreditasse fortemente. A plausibilidade é forte (ainda acredito nela, estando para sair novo ECR). O estudo original (2001) traz resultados expressivos, com impacto em mortalidade que poucas coisas na sepse até então (e até hoje) tinham conquistado. Mas e se o estudo é fake? Teria eu feito papel de pateta? Eu e quantos mais, muitos sem possuir qualquer vínculo com a empresa da tecnologia?

Speakers profissionais: propagandistas sem remorso ou bem-intencionados úteis?
Dei-me conta que talvez o grande objetivo da indústria ao patrocinar congressos (além das áreas de exposição, quando buscam o contato direto com os médicos “comuns”) seja o contato com as lideranças médicas e formadores de opinião, para muito pouco alterar o evento em si, mas firmar ou estreitar um vínculo. Em razão de experiência que tive fazendo eventos médicos, pude conhecer bem uma característica nossa: adoramos poder participar como protagonistas deles. E não poupamos (consciente ou inconscientemente) reciprocidade para conquistar ou manter este privilégio. Sempre que detive o poder de escolher colegas para figurar em púlpitos, isto ficou claro. Fiz admiradores, bajuladores e amigos. De ocasião! Em momento especial, dominado por espírito de porco, fiz um teste. Havia colega com enorme potencial relacionado ao assunto que envolvia meus eventos, mas em um primeiro momento não foi envolvido nas grandes iniciativas, porque simplesmente eu acreditava que ainda não estava pronto. Com tudo para ser um dos nomes a colaborar com o movimento e se destacar, desapareceu. Passado um tempo, o convidei para participação destacada em evento e aconteceu o previsto: reaproximou-se demonstrando forte interesse na causa e diferenciada capacidade de trabalho.

Tudo isto serviu para entender que talvez a principal razão para a aproximação com sociedades médicas não seja bagunçar a qualidade da informação no congresso, mas fazer aliados entre médicos, merecidamente ou não, importantes. Contam mais do que os médicos “comuns”. E a partir disto há outras várias maneiras menos ostensivas de favorecer Evidence BIASED Medicine. Estaria em jogo, por exemplo, forma indireta de influenciar entidades médicas e grades dos eventos: que uma visão crítica da informação, que tem surgido cada vez mais entre os médicos na ponta, não surja antes disto. E não questionar o senso comum pode ser bom não apenas para a indústria. As próprias associações médicas se beneficiam de serem donas de verdades inquestionáveis a serem impostas à massa que controlam e certificam.

Um bom exemplo disto diz repeito à Medicina Intensiva e à Surviving Sepsis Campaign. No final do ano passado, o fabricante do Xigris® suspendeu “voluntariamente” sua lucrativa comercialização, devido aos achados negativos do estudo PROWESS-SHOCK. Leia mais. A suspensão da venda do Xigris ocorreu após vários anos de utilização na prática clínica, sob o custo estimado no Brasil de, em média, R$ 56.000 por paciente. Lembro de poucos eventos oficiais da Medicina Intensiva que tenham, antes do PROWESS-SHOCK, feito contraponto ao caríssimo Xigris®, pelo contrário. Há alguns anos atrás, consegui inserir o assunto em um tom crítico em Congresso Brasileiro de... Clínica Médica (Gramado, 2005). Enquanto isto, a Medicina Intensiva só falava bem. Resgato aqui palestra de 2007, no HCPA, proferida por quem deu também a anterior e muito parecida: http://www.medicinahospitalar.com.br/Aulas/ContrapontoDotrecogina/Drotrecogina_files/intro.htm. Acho que somente funciona em Internet Explorer. Com a mensagem "Loading, please wait...", aguarde cerca de 45 segundos para carga, e clique no botão "parar" de seu navegador. Finalmente, clique em "Play" para ver a aula. Está mais atual do que nunca...

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