quinta-feira, março 21, 2013

Relação entre médicos e empresas farmacêuticas pode ser uma faca de dois gumes

Dois executivos da área farmacêutica entram em um bar. Não, isso não é o início de uma piada. Os funcionários da Roche, uma empresa farmacêutica suíça, estavam jantando com médicos após um congresso de medicina. No bar, alegou uma queixa anônima em um recente relatório de uma organização de fiscalização britânica, eles pagaram drinques (“doses de cores variadas fluíam como lava”) aos médicos. Um executivo subiu no palco e dançou, o que fez com que a equipe do bar o expulsasse. A Roche afirma que seus gerentes encontraram por acaso com os médicos e não lhe pagaram bebidas. Mas essa noite não pode ser incluída nos melhores momentos da história dos elos entre médicos e empresas farmacêuticas

Esse relacionamento é uma barafunda pouco regulada. Em um extremo (benéfico), as empresas desenvolvem novos tratamentos em parcerias com os médicos. No outro extremo, as empresas subornam médicos para que prescrevam seus remédios. O departamento de justiça americano costurou grandes acordos com as empresas graças a essas acusações. Entre esses polos há muitas atividades consideradas padrão por alguns e repugnantes por outros – e que cada vez mais estão sendo reguladas por novas leis.

Neste mês, os reguladores americanos divulgarem regras para implementar uma lei “Luz do Sol”, criada para aumentar o nível de transparência. A França aprovou uma lei similar em 2011. As empresas na Grã-Bretanha estão voluntariamente planejando criar mecanismos de divulgação. Em 2015, mais de 70% das vendas de remédios acontecerão em países com tais leis, de acordo com a Deloitte, uma consultoria.

Fontes: The Economist-Let the sunshine in via http://www.correiodemocratico.com.br 

quarta-feira, março 20, 2013

Médicos podem ser comprados?

por Cláudia Collucci *, 20/03/2013

Não importa se é um jantar, uma viagem ou um pagamento de quatro dígitos. É assim que começam os conflitos de interesse em medicina e sempre haverá possibilidade de influência.

O tema, espinhoso para os médicos e subestimado pelos jornalistas, foi discutido durante uma conferência de jornalismo de saúde de que participei na última semana em Boston (EUA).

No centro da discussão estavam dois jornalistas premiados em coberturas sobre conflitos de interesse (John Fauber, do "Milwaukee Journal Sentinel", e Peter Whoriskey, do "The Washington Post") e dois médicos que pesquisam a área - Adrianne Fugh-Berman (Georgetown University) e Jerry Avorn (Harvard Medical School).

Para eles, o trabalho da indústria é vender o produto, o tanto quanto pode, e maximizar os lucros. E uma das maneiras de fazer isso é por meio de relações financeiras com as várias partes interessadas (médicos, sociedades médicas ou escolas médicas).

"Embora isso possa ser bom para as companhias que fabricam medicamentos de droga ou aparelhos e equipamentos médicos, pode não funcionar para os pacientes", alertou Fauber.

Um exemplo corriqueiro: o médico indica um medicamento mais caro (fabricado por uma indústria com a qual tem alguma parceria) quando existem outras opções mais baratas no mercado.

Fauber e Whoriskey deram alguns conselhos aos jornalistas: estejam atentos às fontes médicas e aos eventos financiados pela indústria e recuse convites para viagens, cursos e prêmios patrocinados por ela. Afinal de contas, os jornalistas podem incorrer nos mesmos conflitos de interesse que afetam os médicos.

Já os médicos Fugh-Berman e Avorn falaram sobre grupos de vigilância em saúde (http://www.pharmedout.org/) e bancos de dados on-line (http://www.rxfacts.org) que podem subsidiar os jornalistas na divulgação de informações mais isentas.

Avorn lembrou, porém, que nem todos os médicos são "vendidos", e que pode haver bons estudos financiados pela indústria farmacêutica. "Estamos sob risco de não acreditar em nada, mesmo quando a pesquisa é válida."

Creio que o primeiro passo para avançarmos nessa discussão no Brasil seja a transparência de informações. Nisso, os EUA estão um passo à frente com a aprovação recente de uma lei que obriga os laboratórios e a indústria de dispositivos em saúde a tornarem públicos nomes dos médicos e valores que eles recebem nas atividades desenvolvidas para a indústria.

Isso, é claro, não os isenta do conflito. Há vários estudos mostrando que, ao revelar o conflito de interesse, os médicos se sentem ainda mais à vontade para continuar no jogo e aceitar de bom grato as benesses da indústria. Mas é o primeiro passo para que o protagonista desse debate, o paciente, fique mais bem informado sobre os interesses em jogo e possa tirar suas próprias conclusões na hora de escolher seu médico.

* repórter especial da Folha e especializada na área da saúde

segunda-feira, março 04, 2013

Conflitos de interesses e os juízes


O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) recuou da proposta de extinguir os patrocínios e aprovou ontem uma resolução para estabelecer um limite máximo. A partir de agora, os tribunais poderão receber financiamento de empresas, desde que o valor não ultrapasse o equivalente a 30% do que será gasto no congresso ou seminário.

A intenção era coibir alguns eventos que, de acordo com conselheiros, assemelhavam-se a colônias de férias, inclusive com o sorteio de presentes, como carros e cruzeiros marítimos. "Esses eventos, na grande maioria, não têm nenhum efeito cultural, especialmente esses que são realizados nas praias", afirmou o corregedor Nacional de Justiça, Joaquim Falcão.

Mas o texto original foi considerado severo demais por integrantes do Conselho. O presidente do CNJ, ministro Joaquim Barbosa, propôs então que fosse estabelecida uma cota para os patrocínios de 30% do valor total do congresso. "A solução dos 30% veio de mim, como forma de viabilizar a resolução", afirmou Barbosa. O ministro, no entanto, disse ser a favor da extinção total dos patrocínios de seminários ou outros eventos com a participação de magistrados. "Isso virá no futuro."

Na nota pública contra a proposta para disciplinar a presença de juízes em eventos patrocinados apresentada ao CNJ pelo corregedor nacional de Justiça, Francisco Falcão, as associações de juízes afirmam que a magistratura brasileira “jamais se deixou influenciar pelos colaboradores de eventos organizados pelas entidades de classe”.

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