Cerca de 10 anos atrás, criei um site chamado Flawed Science Times. Passei tempo demais nele, tornando-o quase indistinguível da seção semanal Science Times do New York Times. Minha ideia era escrever semanalmente sobre o que havia de errado na cobertura de ciência da saúde naquela semana.
Nos primeiros dias do Sensible Medicine, publicamos uma série sobre churnalism. Definimos isso como o relato, sem cuidado e sem curiosidade, de estudos biomédicos mal conduzidos. Argumentamos que esse tipo de jornalismo substitui a história real — por que um estudo é irrelevante ou o que ele realmente mostra — por uma narrativa fácil. Ainda escrevemos sobre isso de tempos em tempos.
Exercício
Antes de continuar, devo dizer:
Exercício é bom para você.
Há evidência extremamente forte de que ele previne mais doenças do que a maioria das pessoas consegue listar: obesidade, doença coronariana, diabetes, demência, câncer, depressão, entre outras.
Também é barato — mais barato do que muitos dos medicamentos modernos.
Todos deveriam encontrar uma forma segura de se exercitar tanto quanto possível, todos os dias.
O problema
A maioria dos artigos sobre exercício aborda uma questão que quase ninguém realmente precisa fazer:
“Se eu já estou me exercitando o máximo possível, há algo que posso fazer para tornar isso ainda melhor?”
Tênis e longevidade
Recentemente, o New York Times publicou um artigo afirmando que o tênis é o melhor esporte para longevidade.
Essa afirmação vem de um estudo dinamarquês publicado em 2018. É um bom exemplo de jornalismo ruim sobre exercício.
Pecado: ignorar plausibilidade
No estudo:
- Pessoas relataram seus hábitos de exercício
- Foram acompanhadas por cerca de 25 anos
Havia um problema importante:
- Muitas pessoas participavam de múltiplas atividades
- Os grupos não eram exclusivos
Ainda assim, os autores relataram que:
- Jogar tênis estava associado a mais de 9 anos adicionais de vida
- Natação a cerca de 3 anos
Isso não é plausível.
A diferença entre diferentes tipos de exercício não deveria ser maior do que a diferença entre fazer exercício e não fazer.
Pecado: confusão (confounding)
É muito mais provável que o resultado seja explicado por confusão.
Pessoas que jogam tênis:
- Tendem a ser mais ricas
- Têm melhor acesso a instalações
- Têm mais conexões sociais
- São, em geral, mais saudáveis desde o início
Além disso, jogar tênis exige:
- Acesso a quadras
- Tempo
- Outras pessoas ou dinheiro para pagar alguém
Ou seja, esse grupo já é diferente.
Pecado: “disclaimer” seguido de desvio
O artigo observa que:
“Esses estudos não provam causalidade.”
Mas rapidamente passa a citar especialistas dizendo que:
“O tênis pode ser especialmente benéfico.”
Esse padrão é comum:
- Primeiro, admite-se a limitação
- Depois, apresenta-se a conclusão como se fosse válida
Pecado: falta de curiosidade
O problema maior é a falta de curiosidade.
Os jornalistas poderiam perguntar:
- Por que esse resultado parece implausível?
- Qual é o papel da renda?
- Qual é o papel das conexões sociais?
- Qual é o papel da saúde inicial?
Mas essas perguntas raramente são feitas.
Conclusão
Exercício é bom.
Mas a cobertura sobre exercício frequentemente não é.
Ela transforma estudos limitados em conclusões amplas e enganosas.
Ideia central
Se você não se exercita, deveria começar.
Se você já se exercita, deveria continuar.
https://www.sensible-med.com/p/the-continuing-stream-of-exercise
