Ambicionamos aqui estimular ainda mais o debate acerca da relação entre a Medicina e as indústrias de medicamentos e tecnologias, e da forma como tem colocado em risco a credibilidade da Medicina Baseada em Evidências. Que consigamos viabilizar um espaço de diálogo altamente saudável, científico e construtivo.
quinta-feira, abril 23, 2026
terça-feira, abril 21, 2026
The Continuing Stream of Exercise Churnalism — Adam Cifu
Cerca de 10 anos atrás, criei um site chamado Flawed Science Times. Passei tempo demais nele, tornando-o quase indistinguível da seção semanal Science Times do New York Times. Minha ideia era escrever semanalmente sobre o que havia de errado na cobertura de ciência da saúde naquela semana.
Nos primeiros dias do Sensible Medicine, publicamos uma série sobre churnalism. Definimos isso como o relato, sem cuidado e sem curiosidade, de estudos biomédicos mal conduzidos. Argumentamos que esse tipo de jornalismo substitui a história real — por que um estudo é irrelevante ou o que ele realmente mostra — por uma narrativa fácil. Ainda escrevemos sobre isso de tempos em tempos.
Exercício
Antes de continuar, devo dizer:
Exercício é bom para você.
Há evidência extremamente forte de que ele previne mais doenças do que a maioria das pessoas consegue listar: obesidade, doença coronariana, diabetes, demência, câncer, depressão, entre outras.
Também é barato — mais barato do que muitos dos medicamentos modernos.
Todos deveriam encontrar uma forma segura de se exercitar tanto quanto possível, todos os dias.
O problema
A maioria dos artigos sobre exercício aborda uma questão que quase ninguém realmente precisa fazer:
“Se eu já estou me exercitando o máximo possível, há algo que posso fazer para tornar isso ainda melhor?”
Tênis e longevidade
Recentemente, o New York Times publicou um artigo afirmando que o tênis é o melhor esporte para longevidade.
Essa afirmação vem de um estudo dinamarquês publicado em 2018. É um bom exemplo de jornalismo ruim sobre exercício.
Pecado: ignorar plausibilidade
No estudo:
- Pessoas relataram seus hábitos de exercício
- Foram acompanhadas por cerca de 25 anos
Havia um problema importante:
- Muitas pessoas participavam de múltiplas atividades
- Os grupos não eram exclusivos
Ainda assim, os autores relataram que:
- Jogar tênis estava associado a mais de 9 anos adicionais de vida
- Natação a cerca de 3 anos
Isso não é plausível.
A diferença entre diferentes tipos de exercício não deveria ser maior do que a diferença entre fazer exercício e não fazer.
Pecado: confusão (confounding)
É muito mais provável que o resultado seja explicado por confusão.
Pessoas que jogam tênis:
- Tendem a ser mais ricas
- Têm melhor acesso a instalações
- Têm mais conexões sociais
- São, em geral, mais saudáveis desde o início
Além disso, jogar tênis exige:
- Acesso a quadras
- Tempo
- Outras pessoas ou dinheiro para pagar alguém
Ou seja, esse grupo já é diferente.
Pecado: “disclaimer” seguido de desvio
O artigo observa que:
“Esses estudos não provam causalidade.”
Mas rapidamente passa a citar especialistas dizendo que:
“O tênis pode ser especialmente benéfico.”
Esse padrão é comum:
- Primeiro, admite-se a limitação
- Depois, apresenta-se a conclusão como se fosse válida
Pecado: falta de curiosidade
O problema maior é a falta de curiosidade.
Os jornalistas poderiam perguntar:
- Por que esse resultado parece implausível?
- Qual é o papel da renda?
- Qual é o papel das conexões sociais?
- Qual é o papel da saúde inicial?
Mas essas perguntas raramente são feitas.
Conclusão
Exercício é bom.
Mas a cobertura sobre exercício frequentemente não é.
Ela transforma estudos limitados em conclusões amplas e enganosas.
Ideia central
Se você não se exercita, deveria começar.
Se você já se exercita, deveria continuar.
https://www.sensible-med.com/p/the-continuing-stream-of-exercise
terça-feira, março 24, 2026
Representante de laboratório conseguiu pegar os médicos da nossa clínica juntos ontem.
— Glauber (@glauber_doc) March 24, 2026
Falou que era pra dar apoio pra ele nas vendas que assim a gente conseguiria lanchinho, e inscrição em congresso. E que era importante o receituário com o medicamento porque assim eles…
domingo, março 08, 2026
O Paradoxo do VBHC e os Conflitos de Interesses 2.0
O que explicaria, então, vermos hoje esses mesmos profissionais sentados à mesa com fontes pagadoras que, desesperadamente, buscam o controle de custos? Estariam as fontes pagadoras mergulhadas em uma onda de “inocência” ou isso reflete apenas uma mudança na lógica comercial?
A Divergência de Visões: Da Clínica à Corporativa
Para um paciente com artrite, por exemplo, o sucesso pode significar alcançar dor zero. Já para um pianista com a mesma condição, o valor pode residir na preservação da mobilidade dos dedos, mesmo que persista alguma dor residual. Não há certo ou errado absoluto: o valor é individual e depende da história, das prioridades e do projeto de vida de cada pessoa.
Na visão corporativa da VBHC, por outro lado, o destino muitas vezes é completamente padronizado, tal como o caminho para atingi-lo. Define-se arbitrariamente uma meta que atende à média, mas não necessariamente o indivíduo. Se o paciente deseja tocar piano, mas o protocolo foca apenas na redução da dor, o sistema considera o objetivo atingido a partir de analgesia apenas. Reflete uma transição da “trilha” — um caminho a ser fortemente sugestionado — para “trilho”, uma rota impossível de desviar.
“...baseiam-se em imprescindível raciocínio probabilístico e no comportamento médio dos resultados das intervenções. Em decisão compartilhada com profissional de confiança, devem ser recalibradas, considerando condição clínica específica, valores e preferências do paciente.”
Mecanismos de Parceria
* Neles, o valor passa a ser o que a essas novas modalidades de parceria decidem que é, muitas vezes ignorando desfechos que não interessam financeiramente a alguma das partes, ou desfechos de interesse dos pacientes mas eventualmente não alinhados.
Parte do Lado Sombrio: Seleção de Riscos e Desincentivo à Complexidade
| Valor Clínico | Valor Corporativo | |
| Definição principal de Sucesso | O que o paciente valoriza para sua vida | O que se define como métrica |
| O Insucesso | O sofrimento não mitigado | O custo adicional |
| Papel do Médico | Intérprete e conselheiro | Executor e garantidor de metas |
| Papel do Paciente | Sujeito com valores próprios | Objeto de estudo de fluxo e desfechos |
| Flexibilidade | De moderada a alta: dentro do possível, o plano terapêutico se adapta ao indivíduo | O paciente deve caber no acordo estabelecido |
Comentários finais
Institucionalizar a Exclusão Invisível: Fomentando ainda mais uma barreira para o paciente complexo, o idoso poliqueixoso ou o portador de doenças que não "cabem" dentro do rol de condições pactuadas;
Atrapalhar a Autonomia Médica Responsável: Reduzindo o profissional a um burocrata seguidor de referenciais;
Segmentar a Saúde Privada: Consolidando essa "saúde de duas velocidades" — uma linha de montagem eficiente para casos selecionados, e um vácuo de interesse para tudo o que exige humanidade, tempo e incerteza.
A verdadeira eficiência não está em "selecionar quem e como tratar", mas em garantir que a inovação tecnológica da indústria e a sustentabilidade das fontes pagadoras sirvam ao seu propósito último: a biografia e a dignidade do paciente. Sem a recalibração constante pelos valores do indivíduo, os "escritório de valor" correm o risco de se tornar apenas o novo nome para a antiga negação de cobertura.
Leituras complementares:
quinta-feira, fevereiro 26, 2026
O padrão é velho conhecido. Nada aqui chega a ser surpresa; trata-se de uma história que se repete. A pergunta é por que ela se renova — e até se perpetua. A resposta é complexa, mas uma explicação contemporânea está no fato de que a maior ameaça pseudocientífica da atualidade se alimenta de um discurso anti-indústria sustentado por meias verdades. Enquanto isso, o outro lado não tem sabido lidar com esse fenômeno: age como se a indústria não pudesse ser criticada. O resultado é que ela passa a ser, mais do que nunca, estimulada a não melhorar.




