terça-feira, abril 15, 2014

Tamiflu: bilhões pelo ralo?

“O Tamiflu um remédio ruim. Tem eficácia pequena, e o beneficio aos pacientes discreto.”

A frase acima do infectologista Esper Kalls, professor da Faculdade de Medicina da USP. Foi publicada em uma entrevista que fiz com ele em 2012, quando houve um aumento de casos da gripe A e uma corrida em busca do medicamento Tamiflu.

Quase dois anos depois, o mundo foi surpreendido na semana passada com o resultado de uma reviso de estudos da Cochrane (rede de cientistas independentes que investigam a efetividade de medicamentos) apontando que o Tamiflu no mais eficiente do que o analgésico paracetamol.




domingo, abril 06, 2014

Provocação

Uma provocação como tentativa de estimular debate: Se existem médicos mal-intencionados, a maioria não é. Muitos percebem-se em maus lençóis, envolvidos em conflitos interesse, por entrarem sem a atenção devida em terreno movediço. Igualmente, muitos profissionais da indústria farmacêutica representam também pessoas boas, tentando fazer coisas boas, e, não infrequentemente, tomam caminhos errados, como qualquer pessoa. Mesmo quando a indústria avança um pouco demais, acho que na maioria das vezes ainda o fazem respeitando limites do bom negócio, e o questionável vem de uma interação complexa conosco, médicos, mais recentemente enfermeiros e outros profissionais da saúde. E, neste cenário, fosse possível apontar um culpado, quem de fato costuma pecar são os profissionais da saúde. Se muito disto ocorre inconscientemente (ao menos no início), tornando difícil, e eventualmente injusto, atribuir dolo, é óbvio também que fizemos quase qualquer coisa por promoção e destaque. Pude ver isto quando fiz congressos médicos. Colegas só não plantaram bananeira para palestrar nos eventos porque não considerei pedir. Fazem todo tipo de esforço pata atingir esta meta, isto resta evidente. Os conflitos de interesse não financeiros na Saúde são, muito provavelmente, tão ou mais importantes...

terça-feira, março 18, 2014

“Laboratórios farmacêuticos continuam livres para interferir em artigos científicos de forma sutil”

Médicos são vulneráveis a estratégias de marketing da indústria farmacêutica.

Por atuarem em área pouco afeita ao universo das vendas, têm dificuldades em notar quando artigos publicados em prestigiosas revistas científicas incluem mensagens subliminares, cuja intenção vai de respaldar a eficácia de drogas ainda nem lançadas, a criar (ou exagerar) “estados de doenças”. A elaboração de tais textos é de ghost-writers – nesse caso, escritores-fantasma a serviço dos laboratórios, responsáveis por produzir textos a serem assinados por colegas de meios acadêmicos.

Opiniões surpreendentes como estas partem de quem entende do assunto: a médica e pesquisadora Adriane Fugh-Berman, diretora do PharmedOut – projeto de pesquisa e educação do Georgetown University Center, que carrega, entre suas missões, a de “expor o efeito do marketing farmacêutico sobre práticas de prescrição”, e autora de vários artigos científicos no tema. “Médicos são bastante inteligentes, mas inexperientes quanto a técnicas de vendas e manipulação psicológica”, opinou, em entrevista exclusiva à Ser Médico.

Porém, nem todos: existem os que se aprimoram em influenciar na prescrição alheia, durante eventos como Educação Médica Continuada, lançando mão de técnicas bem desenvolvidas e capazes de não incluir sequer o nome da droga a ser promovida. Como assim? “A indústria não contrata médicos para vender remédios e sim para vender doenças”, explicou Fugh-Berman, também professora dos departamentos de Farmacologia e Fisiologia e de Medicina da Família, em Georgetown.

Confira a íntegra da entrevista!

Por Concília Ortona,  Jornalista do Centro de Bioética do Cremesp, especialista em Bioética e mestre em Saúde Pública (USP)

terça-feira, março 11, 2014

Roda Viva, sociedades médicas e conflitos de interesse

Para mim, foram muito marcantes no recente Programa Roda Viva que entrevistou o presidente da Associação Médica Brasileira os dois momentos onde refletiu sobre conflitos de interesse.

Falando dos médicos (bloco 3 principalmente), parece bastar controle das sociedades médicas (entidades que representa e que naturalmente quer fortalecer), declaração de conflitos de interesse e bom-senso. Imediatamente após, questionou a Agência Nacional de Saúde Suplementar da seguinte forma: "Há independência nas nossas agências reguladoras? Como são escolhidos seus diretores? Que vínculos eles têm?". Veja abaixo:



Pessoalmente acho que não há independência nas agências reguladoras do governo, mas enxergar a possibilidade disto e da influência só nos outros é muito simplório.

Representa o paradoxo atual do brasileiro: Cada um de nós, individualmente ou em grupos organizados, tem a crença de estar muito acima de tudo que aí está. Ninguém aceita, ninguém aguenta mais, nenhum de nós pactua com o mar de lama. O problema é que, ao mesmo tempo, o resultado de todos nós juntos é precisamente tudo o que aí está, estamos muito aquém da somatória das nossas auto-imagens individuais ou corporativas.

Outro aspecto interessante: quando fala dos médicos comuns, a maioria de nós (vide o trecho aqui), até reconhece eventuais limitações e falhas, que podemos "sair do trilho", propondo como solução que sigamos as orientações das "instituições maiores", suas diretrizes, seus guidelines, suas recomendações. Há controversas! São justamente os grandes formadores de opinião que possuem os mais importantes conflitos de interesse!!! Sugere Florentino que quem ocupa cargos de liderança teria automaticamente maior capacidade de gerenciar conflitos de interesse. Será verdade? Em artigo para o CREMESP, cobramos que a regulação tem que começar por quem tem mais poder e transbordar para o dia-a-dia do médico mais comum. Questionamos o fato de que quase todas as iniciativas até hoje pensadas em nosso meio insinuaram regular apenas o profissional da ponta, deixando de fora quem toma as grandes decisões e, conseqüentemente, as associações médicas. Isto, no meu entendimento, é uma grande injustiça com os colegas que, do ponto de vista prático, tocam a medicina brasileira. Podendo representar, ainda, uma grande armadilha!!!  
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